Cadernos de a
COLE

O
Tempo livre
e Trabalho
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Ao longo de sua histria, o Brasil tem enfrentado o problema da excluso social que
gerou grande impacto nos sistemas educacionais. Hoje, milhes de brasileiros ainda
no se beneficiam do ingresso e da permanncia na escola, ou seja, no tm acesso a um
sistema de educao que os acolha.
Educao de qualidade  um direito de todos os cidados e dever do Estado; garantir o
exerccio desse direito  um desafio que impe decises inovadoras.
Para enfrentar esse desafio, o Ministrio da Educao criou a Secretaria de Educao
Continuada, Alfabetizao e Diversidade  Secad, cuja tarefa  criar as estruturas necessrias
para formular, implementar, fomentar e avaliar as polticas pblicas voltadas para os grupos
tradicionalmente excludos de seus direitos, como as pessoas com 15 anos ou mais que no
completaram o Ensino Fundamental.
Efetivar o direito  educao dos jovens e dos adultos ultrapassa a ampliao da oferta
de vagas nos sistemas pblicos de ensino.  necessrio que o ensino seja adequado aos que
ingressam na escola ou retornam a ela fora do tempo regular: que ele prime pela qualidade,
valorizando e respeitando as experincias e os conhecimentos dos alunos.
Com esse intuito, a Secad apresenta os Cadernos de EJA: materiais pedaggicos para o
1. e o 2. segmentos do ensino fundamental de jovens e adultos. Trabalho ser o tema da
abordagem dos cadernos, pela importncia que tem no cotidiano dos alunos.
A coleo  composta de 27 cadernos: 13 para o aluno, 13 para o professor e um com
a concepo metodolgica e pedaggica do material. O caderno do aluno  uma coletnea
de textos de diferentes gneros e diversas fontes; o do professor  um catlogo de atividades,
com sugestes para o trabalho com esses textos.
A Secad no espera que este material seja o nico utilizado nas salas de aula. Ao contrrio,
com ele busca ampliar o rol do que pode ser selecionado pelo educador, incentivando
a articulao e a integrao das diversas reas do conhecimento.
Bom trabalho!
Secretaria de Educao Continuada,
Alfabetizao e Diversidade  Secad/MEC
Apresentao
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Sumrio
TEXTO Subtema
1. O mito de SsifoRelicostumes 6
2. cio & Negcio 9
3. Tempo rei Diversidades regionais 10
4. Ursa maior Maturidade social 12
5. Benedito da CatiraMiscigenao 14
6. Dilbert Crtica social 17
7. Histria contempornea Trabalhadores 18
8. Contra o tempo Cultura suburbana 20
9. Dilberta luta dos negros 21
10. Parque de diverses Ambiente de trabalho 22
11. A histria do lazer Identidade nacional 24
12. A vida  melhor com lazer commbiente de trabalho 26
13. Lazer e batente ndios do Brasil 28
14. No caladoImigrao e culinria 29
15. Carnaval ou o mundo como teatro e prazer Direitos civis 30
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16. Turismo Origens dos trabalhadores 33
17. Hasta la vista, siestandios do Brasil 34
18. Viver tambm  preciso 36
19. At segunda-feira Olhos da alma 37
20. Homenagem ao malandro Arte culinria 38
21. PescariaArte culinria 39
22. O esprito carnavalescoArte culinria 40
23. Domingo no parque Arte culinria 42
24. Tempo curto Arte culinria 44
25. Eu e outros poemas Arte culinria 45
26. Brasil dos Ronaldos Arte culinria 46
27. A rua Arte culinria 48
28. Ningum faz nada Arte culinria 55
29. O Brasil do bem Arte culinria 57
30. Os portadores de deficincia e o lazer Arte culinria 59
31. O lazer e a crise econmica Arte culinria 62
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Ssifo, mtico fundador da cidade de
Corinto, foi o mais astuto dos mortais.
Viu acidentalmente quando Zeus raptou
Egina, filha do Rio Asopo, e delatou o
raptor ao pai da moa em troca de uma nascente
que Asopo fez brotar na cidadela de
Corinto.
Zeus, encolerizado, enviou Tnato, a
morte, para busc-lo, mas de algum modo
Ssifo conseguiu enganar e prender Tnato.
Como ningum mais morria, Hades estrilou
e Zeus providenciou a libertao de
Tnato. Tnato imediatamente capturou
seu captor e Ssifo baixou ao Hades.
Sofrimento e alegria
TEXTO 1
 Trabalho e Tempo Livre 6
De como enganar a morte
e ser punido com uma tarefa
interminvel, segundo a
mitologia grega
O MITO DE SSIFO
Ilustrao: Alcy
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O precavido Ssifo, no entanto, avisara
a esposa Mrope para no prestar-lhe as
usuais honras fnebres, de modo que
Hades, indignado, no podia receb-lo no
mundo subterrneo. Ssifo desculpou-se
humildemente com o deus e garantiu-lhe
que, se pudesse voltar, puniria a sacrlega
esposa por sua impiedade e resolveria o
problema. O deus concordou, e o espertalho
voltou tranqilamente ao mundo da
superfcie e viveu ainda muitos anos...
Algum tempo depois, o mais esperto e
bem-sucedido ladro da Grcia, Autlico,
filho de Hermes e vizinho de Ssifo, tentou
roubar-lhe o gado. As reses desapareciam
sistematicamente sem que se encontrasse o
menor sinal do ladro, porm Ssifo ficou
desconfiado porque o rebanho de Autlico
aumentava  medida que o seu diminua.
Mas Ssifo era um homem letrado (foi,
aparentemente, um dos primeiros gregos a
dominar a escrita) e deu um jeito de marcar
os cascos dos animais com sinais de modo
que,  medida que o gado se afastava de
seu curral, aparecia no cho a frase Autlico
me roubou...
Mas os dois acabaram se entendendo e
ficaram amigos. Certas verses relatam que
da unio entre Ssifo e Anticlia, filha de
Autlico, nasceu Odisseu, um dos principais
heris da mitologia grega.
As vitrias dos mortais contra os deuses,
no entanto, duram pouco. Ssifo morreu
de velhice e voltou ao Hades pelas vias
normais. Por precauo, foi condenado a
uma tarefa contnua e eterna, que no lhe
deixava tempo para descansar ou pensar
em fugas: empurrar um pesado rochedo
para o alto de um morro.
O detalhe torturante  que essa pedra
tinha um peso calculado de tal forma que,
a poucos metros do cume, faltavam foras
a Ssifo e a pedra rolava encosta abaixo,
comeando tudo outra vez, pela eternidade.
A expresso hoje designa qualquer
trabalho que parea interminvel; por
exemplo, manter o quarto em ordem  um
verdadeiro trabalho de Ssifo, pois ele
comea a desarrumar-se assim que voltamos
as costas.
Trabalho e Tempo Livre  7
Adaptado de http://www.geocities.com/serouseja/camus/sisifo.htm
Foto: Xxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxx
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 Trabalho e Tempo Livre 8
Filsofo e escritor argelino, filho de pais franceses (1913
/1960),  autor, entre outros textos, de O estrangeiro, no
qual descreve a vida absurda de um funcionrio argelino que
vive em Paris e acaba se tornando assassino de um rabe.
Eu vejo aquele homem descendo
com um passo muito medido, em direo
ao tormento que ele sabe que nunca ter
fim. Aquela hora, que  como um momento
de respirao, que sempre voltar
assim como seu sofrimento;  a hora da
conscincia. Em cada um desses momentos,
quando deixa as alturas e gradualmente
mergulha no covil dos deuses, ele
 superior ao seu destino. Ele  mais forte
do que sua pedra. Se este mito  trgico,
 porque seu heri  consciente. Onde
estaria realmente sua tortura se a cada
passo a esperana de prosperar o sustentasse?
O trabalhador de hoje trabalha
todos os dias de sua vida nas mesmas
tarefas, e seu destino no  menos absurdo.
Mas  trgico apenas nos raros momentos
em que ele toma conscincia. Ssifo,
proletrio dos deuses, impotente e rebelde,
sabe a total extenso de sua miservel
condio:  nisso que ele pensa
durante sua descida. A lucidez que deveria
constituir sua tortura ao mesmo tempo
coroa sua vitria. No h destino que
no possa ser superado pelo desprezo.
Se, dessa maneira, a descida  realizada
s vezes com tristeza, tambm pode ser
realizada com alegria.
Adaptado por Pgina Viva do site
www.geocities.com/serouseja/camus/sisifo.htm
Texto 1 / Sofrimento e alegria
Albert Camus
Albert Camus
SSIFO
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Trabalho e Tempo Livre  9
Desde as mais antigas civilizaes existe
diviso entre aqueles que mandam  e
portanto pensam, concebem, inventam
 e os que s obedecem e executam.
Entre os romanos, o trabalho para sustentar
a vida era identificado  palavra negcio,
literalmente, negao do cio. O cio
significava, para os antigos, a forma nobre e
digna de ocupar o tempo livre com o lazer, a
arte do governo e a reflexo. Enquanto isso,
as atividades relacionadas diretamente com
a sobrevivncia material ficavam a cargo dos
escravos, cujas funes eram consideradas
desprezveis.
 primeira vista at poderamos admitir
que seria um desenvolvimento natural da
civilizao, j que alguns teriam melhor
capacidade para o pensar, enquanto outros
s desempenhariam bem os trabalhos manuais.
O olhar mais atento constata, no entanto,
que a sociedade descobre mecanismos
para manter a diviso no conforme os
talentos, mas sim de acordo com a classe a
que cada um pertence.
Um dos instrumentos de manuteno
desse estado de coisas  a educao, privilgio
daqueles que so proprietrios. No
por acaso, a palavra grega schol, de onde
deriva escola, significa, inicialmente, o
lugar do cio. A as crianas das classes
abastadas se ocupam com jogos, ginstica,
msica e retrica, enquanto as demais, pertencentes
aos segmentos pobres, seguem
seu destino social, sem que se levem em
conta as tendncias individuais. Nesse caso,
ou so excludas da escola, ou se encaminham
para a aprendizagem de um ofcio.
Assim se mantm a separao entre
trabalho intelectual e trabalho manual, a escola
funcionando como um divisor de guas.
Fonte: Trabalho em Debate  Organizao de Mrcia Kupstas/
Editora Moderna  So Paulo, 1998, pgs. 26 e 27
O direito ao lazer
TEXTO 2
O conceito romano que
separa os pobres e escravos
pela forma como empregam
seu tempo ainda vigora
CIO&
Ilustrao: Alcy
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Mudanas inevitveis
TEXTO 3
 Trabalho e Tempo Livre 10
TEMPO
REI Gilberto Gil
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No me iludo
Tudo permanecer do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espao navegando todos os sentidos
Pes de Acar
Corcovados
Fustigados pela chuva e pelo eterno vento
gua mole
Pedra dura
Tanto bate que no restar nem pensamento
Tempo rei, , tempo rei, , tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, , pai, o que eu ainda no sei
Me Senhora do Perptuo, socorrei
Pensamento
Mesmo o fundamento singular do ser humano
De um momento
Para o outro
Poder no mais fundar nem gregos nem baianos
Mes zelosas
Pais corujas
Vejam como as guas de repente ficam sujas
No se iludam
No me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo
Tempo rei, , tempo rei, , tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, , pai, o que eu ainda no sei
Me Senhora do Perptuo, socorrei
Trabalho e Tempo Livre  11
Gilberto Gil, Cd Raa Humana
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Macunama se arrastou at a tapera sem gente agora.
Estava muito contrariado porque no compreendia
o silncio. Ficara defunto sem choro, no abandono
completo. Os manos tinham ido-se embora transformados
na cabea esquerda do urubu-ruxama e nem sequer a gente
encontrava cunhas por ali. O silncio principiava cochilando
 beira-rio do Uraricoera. Que enfaro! E principalmente,
ah!... que preguia!...
Macunama foi obrigado a abandonar a tapera cuja ltima
parede tranada com palha de catol estava caindo. Mas o
impaludismo no lhe dava coragem nem pra construir um
papiri. Trouxera a rede para o alto dum teso onde tinha uma
pedra com dinheiro enterrado por debaixo. Amarrou a rede
nos dois cajueiros frondejando e no saiu mais dela por muitos
dias dormindo caceteado e comendo cajus. Que solido! O
prprio squito sarapintado se dissolvera. No v que um
ajuru-catinga passara muito afobado por ali. Os papagaios
perguntaram pro parente onde que ia.
 Madurou milho na terra dos ingleses, vou pra l!
Cultura popular
TEXTO 4
 Trabalho e Tempo Livre 12
URSA MAIOR
Mrio de Andrade
MACUNAMA
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Ento todos os papagaios foram comer milho na terra
dos ingleses. Porm, primeiro viraram periquitos porque,
assim, comiam e os periquitos levavam a fama. S ficara
um arua muito falador. Macunama se consolou pensamenteando:
"O mal ganhado, diabo leva... pacincia". Passava
os dias enfarado e se distraa fazendo o pssaro repetir
na fala da tribo os casos que tinham sucedido pro heri
desde infncia. Aaaah... Macunama bocejava escorrendo
caju, muito mole na rede, com as mos pra trs fazendo
cabeceiro, o casal de legornes empoleirado nos ps e o
papagaio na barriga. Vinha a noite. Aromado pelas frutas
do cajueiro o heri ferrava no sono bem. Quando a arraiada
vinha o papagaio tirava o bico da asa e tomava o caf da
manh devorando as aranhas que de noite fiavam as teias
dos ramos pro corpo do heri. Depois falava:
 Macunama!
O dorminhoco nem se mexia.
 Macunama! h Macunama!
 Deixa a gente dormir, arua...
 Acorda, heri!  de-dia!
 Ah... que preguia!...
Pouca sade e muita sava,
Os males do Brasil so!....
Trabalho e Tempo Livre  13
Macunama. 30. ed. Villa Rica: Minas Gerais,1997
Acervo Iconographia
O escritor Mrio de Andrade
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Cultura popular
TEXTO 5
 Trabalho e Tempo Livre 14
BENEDITO
DA
CATIRA
Benedito Marcondes encosta a carroa no ponto da avenida
Francisco Salles, no centro de Poos de Caldas, Minas
Gerais, e salta sorridente, o chapu colocado, num precrio
equilbrio, no alto da cabea.  quase meio-dia e
Benedito chega de um carreto que foi fazer, transportando
material de construo para o bairro da Cascatinha. Pendurada
no galho de uma rvore, sua marmita de comida quente o
espera, trazida h pouco por um outro carroceiro.
Eu sou o Benedito Violeiro, tem gente que me chama de
Benedito do Catira, outra hora sou o Benedito do Congo. Mas
qualquer nome me serve, que eu gosto de tudo quanto 
dana, e por isso o pessoal me chama assim.
Sentado  sombra de uma rvore,  beira do canal que
corta a cidade, Benedito tem o sotaque carregado do mineiro
Foto: Luciano Coca / Chromafotos / AE
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Trabalho e Tempo Livre  15
da roa: Eu sou nascido aqui perto, na cidade de Caldas,
num stio l, que era do meu pai. Sempre morei na roa, mas
um dia tive que vir pra cidade por causa da doena da mulher,
que os mdicos precisava ficar mais perto pra tratar dela. J
faz 9 anos que eu mudei. Mas logo a mulher me deixou vivo,
com meus sete filhos para criar e a a luta foi dura. Mas nunca
deixei de danar, no, que danar o catira, o congo, a Folia
de Reis  uma devoo. A gente canta e dana sempre em
homenagem ao Santo.  uma maneira que o povo tem de
rezar, e eu acho que agrada mais ao Santo que muito palavrrio.
Mas tambm eu nasci e j achei o catira dentro de
casa. Meu av, meu pai, tudo danava. Eu comecei desde os
7 anos, que decerto minha raa  essa, de gostar de msica,
de dana. Desde pequeno vinha aquela inclinao na minha
idia. Quando panhei uma idade maiorzinha, comprei uma
violinha e fui conversando com ela, conversando, at que
aprendi a tocar umas modas. A, pro catira, comecei a inventar
umas msica minha tambm, pra mode cantar as coisas
nossas, e o pessoal gostou, foi indo. No catira a gente tem
que cantar msica prpria, de moda de viola mesmo. Tem
muitas, umas bonitas do Vieira e Vieirinha, do Moreno e
Moreninho, tem umas que a gente nem sabe quem fez, mas
canta desde o tempo do meu av. Agora a gente tambm
escreve muito, faz da idia da gente.
Aqui em Poos num tem grupo de catireiro; o nico que
tem por a  o nosso, dos roceiro l de Caldas, trs lguas
daqui. Eu sempre vou l danar, quando eles precisa de mim
e me chama. Quando eu quero eles vm aqui. Mora tudo nas
roas, l perto de Caldas. Eu no sei no, mas parece que o
pessoal da roa desenvolve melhor essa dana do catira. O
povo da cidade quase nem liga.
Quando panhei
uma idade
maiorzinha, comprei
uma violinha e fui
conversando com ela,
conversando...
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Texto 5 / Cultura popular
 Trabalho e Tempo Livre 16
O sol est quente e Benedito levanta-se para dar gua ao
cavalo, num balde que est junto ao p da rvore.
A gacho, bebe, bebe... Benedito fala macio com o
cavalo, um cavalo ruo, marchetado de cinza. Esse cavalinho
 bom de carroa, s tem me dado alegria. Tem 7 anos...
 mais novo do que eu. Benedito abre ainda mais o sorriso
que nunca abandona sua cara alegre. J completei meus 49
anos e hoje posso dizer que sou feliz, criei meus filhos tudo,
minha nica tristeza  a viuvez, mas fazer o qu? Eu sempre
enfrentei todo servio, qualquer coisa que for preciso, mas
uma coisa que eu sempre quis foi ficar com a minha dana,
com o catira. O meu servio de carroceiro, muita gente ri de
ns, falando que  tempo de caminho, que num tem mais
lugar pra carroa no. Pois eu acho que tem. Porque se um
sujeito compra a um saco de cimento, uns pedao de tbua,
pruma reforma, qualquer coisa, e vai pagar o frete do caminho
pra levar, acho que paga mais caro que o preo do
cimento. E esses mais pobres, que precisa fazer uma mudancinha,
levar os trem dele num lugar pro outro, pode l pagar
frete de caminho? Agora ns, no, a gente combina com o
fregus, conforme a distncia, o preo justo.  um ganho
bom. E depois o servio  livre,  da gente, num tem patro,
essas coisas. Eu at essa idade de hoje, regulei minha vida
pela minha mo mesmo.
Cena brasileira  artistas e festas populares.
So Paulo: Brasiliense, 1977.
Eu no sei no,
mas parece que o
pessoal da roa
desenvolve melhor
essa dana
do catira. O povo
da cidade quase
nem liga.
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Famlia
TEXTO 6
DILBERT Scott Adams
Trabalho e tempo livre  17
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Qualidade de vida
TEXTO 7
 Trabalho e Tempo Livre 18
Ilustrao: ALcy
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Orico industrial ficou horrorizado ao encontrar um pescador
deitado indolentemente ao lado de seu barco, fumando
um cachimbo.
 Mas por que voc no est pescando?
 Porque j peguei peixe suficiente para hoje.
 E por que voc no sai para pegar mais peixes?
 O que eu faria com eles?
 Ora, voc poderia ganhar dinheiro vendendo-os  explicou
o industrial.  Com o dinheiro poderia consertar o motor
do barco, ir a guas mais profundas e pescar ainda mais peixe.
Teria ento dinheiro para comprar redes de nylon. O que lhe
traria ainda mais peixes e mais dinheiro. Logo teria dinheiro
para possuir dois barcos... talvez uma frota de barcos. E seria
um homem rico como eu.
 E o que eu faria ento?
 Ora, voc poderia ento realmente gozar a vida.
 E o que voc acha que eu estou fazendo agora?
Histrias da alma, histrias do corao, compiladas por
Christina Feldman e Jack Kornfield So Paulo: Pioneira, 1994.
Trabalho e Tempo Livre  19
HISTRIA
CONTEMPORNEA
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Quanto tempo mais
Quanto tempo faz
Quanto tempo vem
Quanto tempo ainda tem... pra acabar
Tempo que ningum vai apagar
Sei l... melhor deixar o tempo passar
D tempo ao tempo, e ele passa correndo
Sentado numa cadeira tipo quem fica s vendo
Podendo eu o parava mas no posso
Por isso rezo espero que tudo melhore logo
Rveillon fao meus votos
E pedido sobre os fogos, apagando anos passados
Com pedido para os novos e do incio aos jogos
Os mesmos de sempre, agindo igual e pedindo um ano diferente
Que tudo seja melhor daqui pra frente (...)
Qualidade de vida
TEXTO 8
 Trabalho e Tempo Livre 20
CONTRA O TEMPO
Quinto Andar
Uma banda canta
sobre esperar ou
fazer acontecer
Publicado na revista Caros Amigos, no 48, maro de 2001.
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Trabalho e Tempo Livre  21
Famlia
TEXTO 9
DILBERT Scott Adams
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Ele saiu com sua melhor roupa, de mos dadas com o filho
maior, e o menor no colo. Deu um beijo na mulher, ela
sorriu, enxugou as mos na barra da saia e foi olhar da
porta a sada alegre da famlia. Era um domingo de cu azul.
Todos os domingos ele fazia o mesmo trajeto com os filhos.
Atravessou a rua com as duas crianas no colo para no
sujarem os nicos sapatos que tinham. Os vizinhos acenaram.
Ele comprou a passagem com tquetes e esperou meia hora na
estao, at que o trem apareceu, vazio. Entrou no vago,
sentou-se com os filhos e fizeram a viagem em silncio. As
crianas, absortas, olhavam a paisagem que se tornava cada
vez mais urbana: carros, ruas asfaltadas e edifcios. Saltaram
na ltima estao.
Caminharam algumas quadras, atravessaram ruas, praas
e chegaram ao ponto de nibus. Esperaram quase uma hora,
as crianas impacientes reclamaram de sede, e ele foi a uma
padaria, pediu um copo de gua e deu de beber aos filhos. As
crianas pediram um sonho, mas ele explicou que no tinha
dinheiro. Voltaram ao ponto. O nibus apareceu. Subiram e
viajaram mais algum tempo. Cansadas, as crianas adormeceram.
O nibus chegou ao centro da cidade.
Saltaram no ponto da praa. Ele deitou as crianas num
banco e esperou. As crianas acordaram e quiseram olhar os
pombos, que comiam milho jogado por um mendigo. Ele disse:
Vamos logo, estamos perto. Atravessaram um labirinto de
 Trabalho e Tempo Livre 22
PARQUE DE D
Ana Miranda
Qualidade de vida
TEXTO 10
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ruas estreitas e desertas, com as grades das lojas abaixadas.
Cruzaram a larga avenida central e chegaram ao destino. De
mos dadas com o filho maior e o menor no colo, ele entrou
no edifcio. O vigia acenou. Faxineiros varriam a rampa. Excitadas,
as crianas sorriam. Ele desceu a escada rolante em
silncio, as crianas absortas. Ao final, fizeram a volta e subiram
a escada rolante. Desceram e subiram durante mais de
uma hora. Ele disse que estava na hora de voltar.
Cruzaram a avenida, o labirinto de ruas, beberam gua
na padaria, tomaram o nibus, o trem, as ruas de lama, e ao
entardecer chegaram em casa, cansados e felizes.
Trabalho e Tempo Livre  23
IVERSES
Publicado na revista Caros Amigos, no 48, maro de 2001.
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Na Grcia antiga dava-se mais valor ao cio do que
ao trabalho, principalmente entre os atenienses,
j que os espartanos eram guerreiros. O cotidiano
do povo grego acontecia fundamentalmente nos
ginsios esportivos, nas termas, no frum ou outros
lugares de reunio.
Interessante notar que a palavra cio, em grego, 
skole; de onde deriva a palavra escola em portugus,
que em latim  schola e em castelhano, escuela. Quer
dizer, os nomes dados aos lugares destinados  educao
significavam cio para os gregos. Assim, eles
consideravam o cio como algo a ser alcanado e
desfrutado.
Para o filsofo Aristteles, o cio era uma condio
ou estado  o estado de estar livre da necessidade
de trabalhar. Ele fala tambm da vida ociosa em
contraposio  vida de ao, entendendo por ao as
atividades dirigidas para obteno de fins materiais.
No considerava cio a diverso ou o recreio, porque
eram atividades diretamente relacionadas com
descanso do trabalho; e a capacidade de viver devidamente
o cio era a base do homem livre e feliz.
O conceito do tempo livre
TEXTO 11
 Trabalho e Tempo Livre 24
Para os gregos,
o cio no significava
no fazer nada,
mas sim dedicar-se
s idias
e ao esprito
A HISTRIA DO LAZER
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Trabalho e Tempo Livre  25
Adaptado por Pgina Viva da revista Partes,
Raulito Ramos Guerra Filho, mestre em Lazer
pela Universidade de Campinas.
J o conceito de cio dos romanos na
Idade Mdia era que as pessoas muito
ocupadas buscavam-no no como um fim,
mas como descanso e diverso no intervalo
de suas diversas atividades  exrcito,
comrcio, governo.
De acordo com estudiosos, a vida de
cio dos gregos s foi possvel por causa da
escravido, pois na poca havia duas classes
de homens: os dedicados  arte,  contemplao
ou  guerra; e os que eram obrigados
a trabalhar, inclusive em condies
precrias: os escravos.
Para os gregos, o cio no significava
no fazer nada, mas sim dedicar-se s idias
e ao esprito, na contemplao da verdade,
do bem e da beleza, de forma no utilitria.
O conceito de lazer
Vrios autores e o cidado comum utilizam diferentes
termos para se referir ao tempo livre:
P cio (do latim otiu) = vagar, descanso,
repouso, preguia;
P Ociosidade (do latim otiositate) = o vcio de gastar
tempo inutilmente, preguia;
P Descanso = repouso, sossego, folga, vagar,
pausa, apoio, demora;
P Lazer (do latim licere) = cio, vagar.
Fazendo convergir as diversas expresses, podemos
considerar a ausncia de qualquer atividade concreta,
ou seja, certa liberdade de no fazer coisa
alguma. Surge de forma clara uma tentativa de definir
certo tempo (fora das ocupaes dirias) em
contraponto com o outro tempo (o das ocupaes
dirias). Assim, o conceito tempo livre parece
aquele que melhor corresponde  necessidade de
batizar a parte do dia em que no estamos ocupados
com atividades definidas.
O conceito mais aceito a respeito do lazer  o do
socilogo francs Joffre Dumazedier: um conjunto
de ocupaes s quais o indivduo pode entregar-se
de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-
se, recrear-se e entreter-se ou, ainda, para desenvolver
sua informao ou formao desinteressada,
sua participao social voluntria ou sua livre capacidade
criadora, aps livrar-se ou desembaraar-se
das obrigaes profissionais, familiares e sociais.
www.partes.com.br
11CA07T11P3.qxd 21.01.07 22:31 Page 25
Embora a diverso faa parte da natureza
humana, as necessidades da vida
moderna acabam impondo obrigaes
que limitam as escolhas sobre o que fazer
com o nosso tempo. Assim, o lazer acaba
sendo deixado em segundo plano, ou realizado
de maneira inadequada; e, infelizmente,
substitudo pela correria, o stress e vrias
doenas "modernas", hoje comuns entre os
adultos e at em crianas, sobretudo para
os que vivem nos grandes centros urbanos.
A VIDA 
MELHOR
COM
A busca do lazer  uma
atitude natural do ser
humano, j que,
espontaneamente,
sempre preferimos nos
ocupar com o que nos
proporciona prazer.
Sade e lazer
TEXTO 12
 Trabalho e Tempo Livre 26
LAZER
12CA07T12P3 12/13/06 12:17 PM Page 26
Trabalho e Tempo Livre  27
O direito ao lazer
O tempo gasto com alimentao, higiene,
sono e outras necessidades fisiolgicas
 considerado tempo gasto com as necessidades
bsicas vitais. Alguns especialistas
defendem que o lazer seja includo nessa
lista, como vivncia fundamental para
manter a sade no homem. "O homem que
no se recreia  um animal doente", diz
Vincius Cavallari, professor de educao
fsica e turismo e especializao em recreao
e lazer sociocultural. Para ele, o ser
humano precisa de lazer, fundamental para
o bem-estar fsico, mental, psicolgico e
espiritual, que  a verdadeira definio de
sade. Cavallari considera o lazer um estado
de esprito. "Voc se encontra em uma
situao favorvel, com uma pr-disposio
voltada para fazer alguma coisa interessante
e gostosa, sem compromisso. Se
voc assumiu um compromisso, deixa de
ser lazer". O professor cita como exemplo
uma festa, sempre uma atividade ldica e
recreativa; mas a festa deixar de ser uma
atividade de lazer se a pessoa estiver indo
por obrigao, para no dar furo com
algum, com vontade de fazer outra coisa.
Lazer  opo pessoal, uma escolha individual,
espontnea", diz.
As muitas vantagens do lazer
Descansar, recuperar as energias, distrair-
se, entreter-se so objetivos que costumam
ser associados ao lazer. No entanto,
alm do descanso e do divertimento, acontece
outra coisa que no  perceptvel, que
 o desenvolvimento pessoal e social que o
lazer permite. No teatro, no turismo, na
festa, esto presentes oportunidades privilegiadas,
porque as pessoas vo a esses lugares
espontaneamente e no por obrigao.
Brincar e rir faz bem
As pessoas costumam dar pouca importncia
ao lado social do lazer. Em geral,
quando uma me sabe que o seu filho vai
participar de vrias atividades recreativas e
aprender um monte de coisas, ela acha til.
Mas se ela souber que a criana s vai brincar
e rir a tarde inteira, talvez considere
intil. As pessoas no percebem que brincar
e rir faz parte do bem-estar e da sade
do homem integral. O adulto no se d o
direito ao brincar, mas se reconhecesse o
quanto isso pode ser bom para a sade, certamente
mudaria de atitude.
Adaptado por Pgina Viva do site da APABB 
Associao de Pais, Amigos e Pessoas com Deficincia,
de Funcionrios do Banco do Brasil e da Comunidade
12CA07T12P3 21.01.07 22:33 Page 27
Para algumas pessoas, o escritrio, o laboratrio,
a empresa, a rua, a escola,
enfim, todos os locais de trabalho e as
atividades ali realizadas podem ser fontes
de satisfao pessoal, alm de trabalho. E no
h nada de errado nisso: trabalhadores
assim so chamados de worklovers, expresso
em ingls que quer dizer apaixonados
pelo trabalho.
Quem lhes deu esse nome foram os
socilogos, psiclogos e mdicos do Laboratrio
de Psicologia do Trabalho da Universidade
de Braslia (Unb), que estudam
as relaes entre indivduo e trabalho. Uma
outra palavra inglesa, workaholic, que
designa as pessoas viciadas em trabalho
(que usam a profisso para fugir dos outros
aspectos da vida), se contrape aos worklovers,
que so apaixonados pelo que fazem,
trabalham muito, mas tm sua vida pessoal
e cumprem seus outros papis na
sociedade, explica o psiclogo Wanderley
Codo, coordenador da pesquisa. Trabalham
muito, mas conseguem tempo para
manter os laos afetivos familiares e para o
lazer (). O trabalho  extremamente
importante para a construo da identidade
da pessoa.  nele que o homem exerce
sua capacidade de modificar a realidade,
de se ver e de se identificar com o que faz.
E existem muitos profissionais que conseguem
manter essa capacidade no trabalho,
diz Wanderley.
A diferena
essencial entre worklovers
e workaholics
Sofrimento e alegria no escritrio
TEXTO 13
 Trabalho e Tempo Livre 28
Adaptado por Pgina Viva de O Estado de S. Paulo, de 29/10/04.
Ilustraes: Alcy
LAZER E
BATENTE
PODEM SER BONS
COMPANHEIROS
13CA07T13P3.qxd 21.01.07 22:36 Page 28
Trabalho e Tempo Livre  29
Lazer
TEXTO 14
NO CALADO
Foto: Maurcio de Souza / AE
Jogo de baralho no
calado de Santos,
So Paulo.
14CA07T14P3.qxd 12/13/06 2:54 PM Page 29
Cultura popular
TEXTO 15
 Trabalho e Tempo Livre 30
Os quatro dias que distribuem
igualitariamente o direito ao
excesso e  fantasia
CARNAVAL OU O
MUNDO
COMO TEATRO
E PRAZER
Foto: Alexandre Belem / AE
Acervo Iconographia
15CA07T15P3.qxd 12/13/06 3:35 PM Page 30
Trabalho e Tempo Livre  31
Roberto Damatta
Mas qual a receita para o carnaval brasileiro? Sabemos
que o carnaval  definido como liberdade e como
possibilidade de viver uma ausncia fantasiosa e
utpica de misria, trabalho, obrigaes, pecado e deveres.
Trata-se de um momento em que se pode deixar de viver a
vida como fardo e castigo. , no fundo, a oportunidade de
fazer tudo ao contrrio: viver e ter uma experincia do
mundo como excesso  mas como excesso de prazer, de
riqueza (ou de luxo), de alegria e de riso; de prazer sensual
que finalmente fica ao alcance de todos.
Se o desastre distribui o malefcio sem escolher entre
ricos e pobres, o carnaval faz o mesmo, s que ao contrrio.
A catstrofe que o carnaval brasileiro possibilita  a da
distribuio livre e igualitria do prazer sensual para todos.
O Rei Momo  Dionsio, o Rei da Inverso, da Antiestrutura
e do Desregramento  sugere, com o carnaval, a possibilidade
bizarra, inventando um universo social onde a regra 
praticar sistematicamente todos os excessos!
Por isso, o carnaval  percebido como algo que vem de
fora para dentro da sociedade. Como uma onda irresistvel
que nos domina, controla e seduz inapelavelmente. Ele  igualmente
percebido como uma festa onde todos so iguais  ou
podem viver uma significativa experincia de igualdade.
Mas o que o carnaval consegue fazer com o Brasil? Que
extraordinrio  esse que ele to criativamente inventa?
O carnaval  um ritual de inverso do mundo. Uma catstrofe.
S que  uma reviravolta positiva, porque planejada e,
por isso mesmo, vista como desejada e necessria.
15CA07T15P3.qxd 12/13/06 3:35 PM Page 31
Texto 15 / Cultura popular
 Trabalho e Tempo Livre 32
No carnaval, trocamos o trabalho que castiga o corpo (o
velho tripalium ou canga romana que subjugava escravos)
pelo uso do corpo como instrumento de beleza e de prazer.
No trabalho estragamos, submetemos e gastamos o corpo. No
carnaval, isso tambm ocorre, mas de modo inverso. Aqui, o
corpo  gasto pelo prazer e pela brincadeira. Da por que falamos
que nos esbaldamos ou liquidamos no carnaval.
O carnaval tambm promove a troca dos uniformes pelas
fantasias. Se o uniforme  uma vestimenta que cria ordem e
hierarquia, a fantasia permite o exagero e a troca de posies.
Note-se que, no carnaval do Brasil, no vestimos costumes,
mas fantasias. E a fantasia  tanto o sonho acordado quanto
aquela roupa que realiza a ponte entre o que realmente somos
e o que poderamos ter sido ou o que merecamos ser. A fantasia
liberta, desconstri, abre caminho e promove a passagem
para outros lugares e espaos sociais. Ela permite o livre
trnsito das pessoas por dentro de um espao social que o mundo
cotidiano, com suas leis e preconceitos, torna proibitivo.
Ademais, ela torna possvel passar de ningum a algum;
de marginal do mercado de trabalho a figura mitolgica.
 precisamente por estar vivendo uma situao na qual as
regras do mundo dirio esto temporariamente de cabea para
baixo que posso ganhar e realmente sentir uma incrvel sensao
de liberdade. Liberdade fundamental numa sociedade cuja
rotina  dominada pelas hierarquias que a todos sujeitam
numa escala de direitos e deveres vindos de cima para baixo,
dos superiores para os inferiores, dos elementos que entram
na fila e das pessoas que jamais so vistas em pblico como
comuns.
O que  o Brasil?, de Roberto Damatta. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.
Volume EJA  Ministrio da Educao  PNBE.
15CA07T15P3.qxd 21.01.07 22:38 Page 32
Lazer gerando renda
TEXTO 16
Trabalho e Tempo Livre  33
Olazer e o turismo vm ganhando peso
cada vez maior no dia-a-dia da
vida moderna. Antes aproveitados
apenas pela elite da sociedade, foram se tornando
acessveis a um pblico crescente,
graas aos processos histricos de democratizao
e aos avanos tecnolgicos. Esses
levaram ao aumento da produtividade, 
reduo dos custos em geral e das jornadas
de trabalho, elevando os recursos disponveis
para consumo das camadas mais pobres
da populao.
Atualmente, a indstria e os servios
ligados ao setor colocam-se entre os campees
de crescimento. A indstria de viagens
e turismo est entre as mais desenvolvidas
do mundo e exerce influncia
sobre outros setores de atividades, como o
varejo e a construo civil, por exemplo. 
uma indstria que perde somente para a
de alimentao em termos de consumo.
www.brasilcultura.com.br
TURISMO As faixas mais modestas
da populao
comeam a participar
da indstria do cio
16CA07T16P3.qxd 12/13/06 3:43 PM Page 33
 Trabalho e Tempo Livre 34
HASTA LA VISTA,
SIESTA!
Costumes regionais
TEXTO 17
Si usted no est durmiendo lo suficiente,
quizs es hora de empacar e irse a
Espaa. Y no se preocupe por el sueo
perdido como consecuencia del cambio de
horario. En Espaa es costumbre dormir de
dos a tres horas en la tarde. Durante las
horas de siesta muchos negocios permanecen
cerrados desde las dos hasta las
cinco. sta es la famosa siesta espaola, y
ellos adoptaron esta tradicin como una
forma prctica de lidiar con el calor intenso
de las tardes. Los espaoles insisten en
que se debe dormir unas pocas horas du-
17CAO7T17P3.qxd 12/15/06 10:05 PM Page 34
rante las horas de sol. Esto les permite estar
vivaces y alertas hasta muy tarde por la
noche, durante los fines de semana y la
media noche cuando tradicionalmente se
sirve la cena.
En Espaa, es comn quedarse despierto
hasta tarde todos los das. Este es un pas
en el que disfrutar de la vida y estar fuera
de casa hasta muy tarde por la madrugada
es algo cultural.
En la ciudad de Barcelona y en la regin
de Andaluca los trabajadores estn
durmiendo menos, como consecuencia de
las exigencias de produccin de otros pases
de la Comunidad Europea, donde darse
siestas no es comn. A pesar de los cambios
impuestos por las nuevas exigencias de
produccin, los espaoles continan cenando
a las 9 de la noche. Sin embargo, la tradicional
siesta est desapareciendo lentamente.
La gente de negocios ha comenzado
a trabajar durante las horas en las que
antes se tomaba la siesta. Esto es debido a
que frecuentemente deben negociar con
pases como Alemania y Suecia que se
adhieren a un horario distinto de negocios,
ya no tienen tiempo para su siesta. A pesar
de estos cambios, los espaoles procuran
echarse a dormir cuantas veces puedan
mientras no estn trabajando o atendiendo
obligaciones familiares.
Federico Busquets, un emprendedor de
negocios espaoles, considera que la siesta
tradicional es inmensamente necesaria, y
ha creado la franquicia de un prspero saln
de masajes que funciona con esa filosofa.
La gente generalmente se queda
dor- mida en las sillas de masaje de los 18
esta- blecimientos de Busquets, y a nadie le
mo- lesta. Los clientes estn tan desesperados
por una siesta que pagan el equivalente
a 7 euros por un masaje de 10 minutos que
les permite dormir y descansar durante las
horas de trabajo. Segn declar Busquets
la siesta no slo es una necesidad, sino que
es parte de la identidad espaola. Estamos
en Espaa! Estamos hablando de la
siesta. Perderla sera como perder las corridas
de toros, o la sangra, o la paella. Siesta
nacional? Ol!
Adaptado do site: www.1800sucolchon.com/sleepwell/siesta.asp
Trabalho e Tempo Livre  35
17CAO7T17P3.qxd 12/15/06 10:05 PM Page 35
Grande parte dos trabalhadores brasileiros
faz horas extras. Pesquisas
demonstram que os patres lucram
com isso; os trabalhadores concordam e
aproveitam para melhorar sua renda mensal.
Apesar disso, a longo prazo todos saem
perdendo.
Aumento do trabalho
Nos ltimos vinte anos, as exigncias
de produo tornaram o trabalho
mais rpido, cansativo, e estressante.
Isso porque eliminaram o tempo
livre, criaram o trabalhador multifuncional
e polivalente, e aumentaram significativamente
o desgaste mental. Trabalhar
acima dos nossos limites significa
sofrimento psquico, estresse e, por fim,
adoecimento.
Jornada prolongada
Para uma simples jornada de trabalho
oficial de 44 horas, ou de 40
horas semanais, como j acontece em
muitas empresas, os problemas de fadiga
e estresse ja tm provocado um alto
ndice de adoecimento. Fazer horas extras
 arriscar ainda mais a sade, pois duas
horas extras no significam um desgaste
de apenas duas horas a mais de trabalho.
Uma bomba-relgio
Trabalhar duas horas extras no
final da jornada significa um desgaste
enorme.  fcil entender a
razo: imagine um atleta ter de correr
mais 8 km ao final dos 42 km de uma
maratona. Pois  exatamente isso que
voc faz quando trabalha mais duas horas
ao final das suas 8 horas normais. Ou trabalha
no seu dia de descanso aps uma
semana inteira exaustiva. Alm disso,
voc perde o tempo que teria para fazer
outras coisas como descansar, passear,
estudar, namorar, ou simplesmente pensar
na sua vida. Ca entre ns, voc j pensou
nisso?
www.smabc.org.br
VIVER
TAMBM  PRECISO
Carga horria
TEXTO 18
 Trabalho e Tempo Livre 36
Horas extras, segundo pesquisas, fazem mal  sade
Ilustrao: Alcy
18CA07T18P3.qxd 12/13/06 4:11 PM Page 36
Trabalho e Tempo Livre  37
Lazer
TEXTO 19
AT SEGUNDA-FEIRA
Chico Buarque
Sei que a noite inteira eu vou cantar
At segunda-feira
quando volto a trabalhar, morena
Sei que no preciso me inquietar
At segundo aviso
Voc prometeu me amar
Por isso eu conto a quem encontro pela rua
Que meu samba  seu amigo
Que a minha casa  sua
Que meu peito  seu abrigo
Meu trabalho, seu sossego
Seu abrao, meu emprego
Quando chego
No meu lar, morena
http://vagalume.uol.com.br/chico-buarque/ate-segunda-feira.html
Ilustrao: Alcy
19CA07T19P3.qxd 12/13/06 4:49 PM Page 37
Trabalho e tempo livre
TEXTO 20
 Trabalho e Tempo Livre 38
Eu fui fazer um samba em homenagem
 nata da malandragem, que conheo
de outros carnavais.
Eu fui  Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem no existe mais.
Agora j no  normal, o que d de malandro
regular profissional, malandro com o aparato
de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital,
que nunca se d mal.
Mas o malandro para valer, no espalha,
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as ms lnguas que ele at trabalha,
Mora l longe, chacoalha no trem da central.
http://letras.terra.com.br/letras/45135/
HOMENAGEM
AO MALANDRO
Chico Buarque de Holanda
Ilustrao: Alcy
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Trabalho e Tempo Livre  39
Lazer
TEXTO 21
PESCARIA
Foto: Jos Inacio Parente
Pai e filhos em um
momento de lazer. Interior
do Estado do Rio de Janeiro.
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 Trabalho e Tempo Livre 40
O ESPRITO CARNAVALESCO
Moacyr Scliar
Cansado, ele dormia a sono alto, quando foi bruscamente
despertado pela esposa, que o sacudia violentamente.
 Que aconteceu?  resmungou ele, ainda de olhos
fechados.
 No posso dormir  queixou-se ela.
 No pode dormir? E por qu?
 Por causa do barulho  ela, irritada:  Ser possvel
que voc no oua?
Ele prestou ateno: de fato, havia barulho. O barulho de
uma escola de samba ensaiando para o carnaval: pandeiros,
tamborins... No escutara antes por causa do sono pesado. O
que no era o caso da mulher. Ela exigia providncias.
 Mas o que quer voc que eu faa?  perguntou ele, agora
tambm irritado.
 Quero que voc v l e mande pararem com esse
barulho.
 De jeito nenhum  disse ele.  No sou fiscal, no sou
polcia. Eu no vou l.
Virou-se para o lado com o propsito de conciliar de novo
o sono. O que a mulher no permitiria: logo estava a sacudi-lo
de novo.
Ele acendeu a luz, sentou na cama:
 Escute, mulher.  carnaval, esta gente sempre ensaia no
carnaval, e no vo parar o ensaio porque voc no consegue
dormir.  melhor voc colocar tampes nos ouvidos e esquecer
esta histria.
Ela comeou a chorar.
Carnaval e liberdade
TEXTO 22
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Trabalho e Tempo Livre  41
 Voc no me ama  dizia, entre soluos.  Se voc me
amasse, iria l e acabaria com a farra.
Com um suspiro, ele levantou-se da cama, vestiu-se e saiu,
sem uma palavra.
Ela ficou  espera, imaginando que em dez ou quinze
minutos a batucada cessaria.
Mas no cessava. Pior: o marido no voltava. Passou-se
meia hora, passou-se uma hora: nada. Nem sinal dele.
E a ela ficou nervosa. Ser que tinha acontecido alguma
coisa ao pobre homem? Ser que  por causa dela  ele tinha
se metido numa briga? Teria sido assassinado? Mas, neste
caso, por que continuava a batucada? Ou seria aquela gente
to insensvel que continuava a orgia carnavalesca mesmo
depois de ter matado um homem? No agentando mais, ela
vestiu-se e foi at o terreiro da escola de samba, ali perto.
No, o marido no tinha sido agredido e muito menos
assassinado. Continuava vivo, e bem vivo: no meio de uma
roda, ele sambava, animadssimo.
Ela deu meia-volta e foi para casa. Convencida de que o
esprito carnavalesco  imbatvel e fala mais alto do que qualquer
coisa.
O imaginrio cotidiano, de Moacyr Scliar. 2. ed. So Paulo: Global, 2002.
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O rei da brincadeira  , Jos
O rei da confuso  , Joo
Um trabalhava na feira  , Jos
Outro na construo  , Joo
A semana passada, no fim da semana
Joo resolveu no brigar
No domingo de tarde saiu apressado
E no foi pra Ribeira jogar
Capoeira
No foi pra l pra Ribeira
Foi namorar
O Jos como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
L perto da Boca do Rio
Foi no parque que ele avistou Juliana
Foi que ele viu
Juliana na roda com Joo
Uma rosa e um sorvete na mo
Juliana, seu sonho, uma iluso
Juliana e o amigo Joo
O espinho da rosa feriu Z
E o sorvete gelou seu corao
O sorvete e a rosa  , Jos
A rosa e o sorvete  , Jos
Oi, danando no peito  , Jos
Do Jos brincalho  , Jos
O sorvete e a rosa  , Jos
A rosa e o sorvete  , Jos
Oi, girando na mente  , Jos
Do Jos brincalho  , Jos
Lazer e tragdia
TEXTO 23
 Trabalho e Tempo Livre 42
DOMINGO
NO PARQUE
Gilberto Gil
23CA07T10P2.qxd 12/13/06 5:34 PM Page 42
Juliana girando  oi, girando
Oi, na roda gigante  oi, girando
Oi, na roda gigante  oi, girando
O amigo Joo  Joo
O sorvete  morango   vermelho
Oi, girando, e a rosa   vermelha
Oi, girando, girando   vermelha
Oi, girando, girando  olha a faca!
Olha o sangue na mo  , Jos
Juliana no cho  , Jos
Outro corpo cado  , Jos
Seu amigo, Joo  , Jos
Amanh no tem feira  , Jos
No tem mais construo  , Joo
No tem mais brincadeira  , Jos
No tem mais confuso  , Joo
Gilberto Bil, LP Gilberto Gil, 1968.
Trabalho e Tempo Livre  43
Sugesto de arte: foto derosa,
sangue, elementos da cano /
istock
23CA07T10P2.qxd 12/13/06 5:34 PM Page 43
 Trabalho e Tempo Livre 44
Publicado na revista Caros Amigos.
TEMPO CURTO Claudius
Ansiedade
TEXTO 24
24CA07T24P3.qxd 12/14/06 1:26 AM Page 44
Ms compensaes
Trabalho e Tempo Livre  45
GOZO INSATISFEITO
Entre o gozo que aspiro, e o sofrimento
De minha mocidade, experimento
O mais profundo e abalador atrito...
Queimam-me o peito custicos de fogo
Esta nsia de absoluto desafogo
Abrange todo o crculo infinito.
Na insaciedade desse gozo falho
Busco no desespero do trabalho,
Sem um domingo ao menos de repouso,
Fazer parar a mquina do instinto,
Mas, quanto mais me desespero, sinto
A insaciabilidade desse gozo!
EU E OUTROS POEMAS
Augusto dos Anjos
retrato do autor
TEXTO 25
25CA07T25P3.qxd 12/14/06 1:32 AM Page 45
O BRASIL DOSRONALDOS
Realidade de vida
TEXTO 26
 Trabalho e Tempo Livre 46
Mesmo fora de forma e acima do peso,
muita gente no abre mo de correr atrs
da bola para se divertir. Especialistas
alertam sobre os riscos para a sade do
esportista de fim de semana.
J passava das 3 e meia da
tarde de sbado e os quatro
homens de calo e
chuteiras esperam sob o sol
os companheiros que vo disputar
uma partida de futebol
soaite. Cada um veste a camisa
de um time diferente,
mas algum ficou de trazer
os coletes para distinguir as
equipes. Os peladeiros chegam
aos poucos. Finalmente
foi atingido o quorum.
Ops, passou, j so dezesseis... Tudo
bem. O importante  competir. Com a
chegada de reforos, os times j podem ter
nove jogadores e se dar ao luxo de jogar
com sete de cada lado  como pede a regra
 e ainda ter dois reservas, no para uma
possvel mudana ttica, mas para revezar
o flego. Falta o responsvel pelos coletes,
mas a bola estando ali, dse
um jeito: o time da
direita tira as camisas.
Comea o espetculo. A
brincadeira dessa turma
de jornalistas de Braslia
acontece h tanto
tempo, quase duas dcadas,
que j incorporou
profissionais de outras reas
e filhos dos atletas. Um dos
organizadores, Jnio Lessa, brinca
que a aceitao de mdicos e fisioterapeutas
foi oportuna, s falta o reforo
de um psiquiatra. Lus Lima, o Lula, sofre
quando precisa faltar, nem que seja para
organizar o Trem do Forr de Recife, sua
cidade natal: Prefiro jogar. Joo Forni,
com a camisa do Grmio, confirma: A
pelada  sagrada. Um dos sem-camisa, o
diplomata Jos Renato, viveu um dilema
Ederson Granetto
26CAO7T26P3.qxd 12/13/06 6:56 PM Page 46
Trabalho e Tempo Livre  47
quando estudava para o concurso do Instituto
Rio Branco. Tinha exames no domingo,
mas no conseguia faltar  pelada da
vspera. Preferia conviver com a culpa de
no ter estudado como deveria. Ainda
bem que passou na prova.
As peladas de fim de semana fazem
parte da vida de milhes de brasileiros e,
cada vez mais, tambm de brasileiras.
Alguns grupos so mais organizados, tm
calendrio e razo social, fazem parte
de associaes e campeonatos.
Mas a maioria  pura diverso,
sem juiz ou bandeirinha, com
atacantes e defensores se
revezando at para defender
o gol. E a diverso
no se restringe ao futebol:
vlei, basquete e
tnis tambm fazem parte
dos remdios antiestresse.
Brincadeira arriscada
O problema  que a maioria
desses atletas de fim de semana
no tem preparo fsico para o esforo
em campo. Cardiologistas e ortopedistas
alertam para os altos riscos dessas atividades.
O doutor Nabil Gorayeb, mdico
responsvel pelo setor de Cardiologia do
Esporte do Instituto Dante Pazzanese e pelo
check-up esportivo do Hospital do Corao
de So Paulo, conta que no  pequeno o
nmero dos que encontram no esporte de
fim de semana o gatilho para um enfarte.
Quem gosta de atividades esportivas tem
de se preparar, conhecer o esporte e treinar,
afirma.
A sorte de quem exagera nos exerccios
de fim de semana, diz o mdico,  que
o trauma ortopdico vem antes do cardiovascular
e s vezes salva a pessoa.
Outros riscos por falta de condicionamento
fsico so as tores de tornozelo,
distenso ou ruptura muscular por falta de
condicionamento especfico. Os especialistas
recomendam treinar o gesto esportivo,
com exerccios especficos
para saltar, chutar, mudar
de direo, bloquear e fazer
fintas. Sem isso, a musculatura
no responde como deveria
e abre caminho para a
leso.
Os mdicos dizem que,
embora o risco para os mais
jovens seja menor, mesmo
eles devem caminhar pelo
menos meia hora, trs vezes
por semana, fazer alongamento e trabalho
muscular, para ter um condicionamento
mnimo e melhora na qualidade de vida.
*Agncia Carta Maior
26CAO7T26P3.qxd 12/13/06 6:56 PM Page 47
Vida urbana
TEXTO 27
 Trabalho e Tempo Livre 48
ARUA
Fotos: Acervo Iconografia
27CA07T27P3.qxd 12/13/06 8:40 PM Page 48
Trabalho e Tempo Livre  49
Joo do Rio
Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda ntima
no vos seria revelado por mim se no julgasse, e razes
no tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e
assim exagerado  partilhado por todos vs. Ns somos irmos,
ns nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias,
nos povoados, no porque soframos, com a dor e os desprazeres,
a lei e a polcia, mas porque nos une, nivela e agremia
o amor da rua.  este mesmo o sentimento imperturbvel e
indissolvel, o nico que, como a prpria vida, resiste s idades
e s pocas. Tudo se transforma, tudo varia  o amor, o
dio, o egosmo. Hoje  mais amargo o riso, mais dolorosa a
ironia, os sculos passam, deslizam, levando as coisas fteis
e os acontecimentos notveis. S persiste e fica, legado das
geraes cada vez maior, o amor da rua. A rua! Que  a rua?
Um canonetista de Montmartre f-la dizer:
Je suis la rue, femme ternellement verte,
Je nai jamais trouv dautre carrire ouverte
Sinon dtre la rue, et de tout temps, depuis
Que ce pnible monde est monde, je la suis...
A verdade e o trocadilho! Os dicionrios dizem: Rua,
do latim ruga, sulco. Espao entre as casas e as povoaes
por onde se anda e passeia. E Domingos Vieira, citando as
Ordenaes: Estradas e rua pruvicas antiguamente usadas
e os rios navegantes se som cabedaes que correm continua-
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Texto 27 / Vida urbana
 Trabalho e Tempo Livre 50
mente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e
ruas pruvicas.
A obscuridade da gramtica e da lei! Os dicionrios s
so considerados fontes fceis de completo saber pelos que
nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri
dez, vinte enciclopdias, manuseei in-flios especiais de
curiosidade. A rua era para eles apenas um alinhado de
fachadas por onde se anda nas povoaes.
Ora, a rua  mais do que isso, a rua  um fator da vida
das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdo,
em Londres ou Buenos Aires, sob os cus mais diversos, nos
mais variados climas, a rua  a agasalhadora da misria. Os
desgraados no se sentem de todo sem o auxlio dos deuses
enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua.
A rua  o aplauso dos medocres, dos infelizes, dos miserveis
da arte. No paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados
de leo avaro, nem  velha Patti para admitir um fio
de voz velho, fraco e legendrio.
Bate, em compensao, palmas aos saltimbancos que,
sem voz, rouquejam com fome para alegr-la e para comer.
A rua  generosa. O crime, o delrio, a misria no os denuncia
ela. A rua  a transformadora das lnguas. Os Cndido de
Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para
enclausurar expresses; os prosadores bradam contra os
Cndido. A rua continua, matando substantivos, transformando
a significao dos termos, impondo aos dicionrios
as palavras que inventa, criando o calo que  o patrimnio
clssico dos lxicons futuros. A rua resume para o animal
civilizado todo o conforto humano. D-lhe luz, luxo, bemestar,
comodidade e at impresses selvagens no adejar das
rvores e no trinar dos pssaros.
A rua nasce, como o homem, do soluo, do espasmo. H
suor humano na argamassa do seu calamento. Cada casa
que se ergue  feita do esforo exaustivo de muitos seres, e
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Trabalho e Tempo Livre  51
haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras
para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopia
to triste que pelo ar parece um arquejante soluo. A
rua sente nos nervos essa misria da criao e, por isso,  a
mais igualitria, a mais socialista, a mais niveladora das
obras humanas. A rua criou todas as blagues, todos os lugares-
comuns. Foi ela que fez a majestade dos rifes, dos brocardos,
dos anexins, e foi tambm ela que batizou o imortal
Calino. Sem o consentimento da rua no passam os sbios, e
os charlates que a lisonjeiam lhe resumem a banalidade,
so da primeira ocasio desfeitos e soprados como bolas de
sabo. A rua  a eterna imagem da ingenuidade. Comete
crimes, desvaria  noite, treme com a febre dos delrios, para
Fotos: Acervo Iconografia
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Texto 27 / Vida urbana
 Trabalho e Tempo Livre 52
ela como para as crianas a aurora  sempre formosa, para
ela no h o despertar triste, quando o sol desponta e ela
abre os olhos esquecida das prprias aes, , no encanto da
vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostlgico
dos preges, to modesta, to lavada, to risonha, que
parece papaguear com o cu e com os anjos...
A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um
tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em
cada detalhe, em cada praa, tipo diablico que tem dos
gnomos e dos silfos das florestas, tipo proteiforme, feito de
risos e de lgrimas, de patifarias e de crimes irresponsveis,
de abandono e de indita filosofia, tipo esquisito e ambguo
com saltos de felino e risos de navalha, o prodgio de uma
criana mais sabida e ctica que os velhos de setenta invernos,
mas cuja ingenuidade  perptua, voz que d o apelido
fatal aos potentados e nunca teve preocupaes, criatura que
pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e
pode rir, francamente, depois de ter conhecido todos os
males da cidade, poeira douro que se faz lama e torna a ser
poeira  a rua criou o garoto!
Fotos: Acervo Iconografia
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Trabalho e Tempo Livre  53
Essas qualidades ns as conhecemos vagamente. Para
compreender a psicologia da rua no basta gozar-lhe as delcias
como se goza o calor do sol e o lirismo do luar.  preciso
ter esprito vagabundo, cheio de curiosidades malss e os
nervos com um perptuo desejo incompreensvel,  preciso
ser aquele que chamamos flneur e praticar o mais interessante
dos esportes  a arte de flanar.  fatigante o exerccio?
Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de
Horcio, a p, no fez outra coisa nos quarteires de Roma.
Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e
Balzac fez todos os seus preciosos achados flanando. Flanar!
A est um verbo universal sem entrada nos dicionrios, que
no pertence a nenhuma lngua! Que significa flanar? Flanar
 ser vagabundo e refletir,  ser basbaque e comentar, ter o
vrus da observao ligado ao da vadiagem. Flanar  ir por
a, de manh, de dia,  noite, meter-se nas rodas da populaa,
admirar o menino da gaitinha ali  esquina, seguir com
os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas
praas os ajuntamentos defronte das lanternas mgicas,
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conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Sade,
depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior
tenor do Lrico numa pera velha e m;  ver os bonecos
pintados a giz nos muros das casas, aps ter acompanhado
um pintor afamado at a sua grande tela paga pelo Estado;
 estar sem fazer nada e achar absolutamente necessrio ir
at um stio lbrego, para deixar de l ir, levado pela primeira
impresso, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa,
um par jovem cujo riso de amor causa inveja.
 vagabundagem? Talvez. Flanar  a distino de perambular
com inteligncia. Nada como o intil para ser artstico.
Da o desocupado flneur ter sempre na mente dez mil coisas
necessrias, imprescindveis, que podem ficar eternamente
adiadas. Do alto de uma janela, como Paul Adam, admira o
caleidoscpio da vida no eptome delirante que  a rua; 
porta do caf, como Poe no Homem das multides, dedica-se
ao exerccio de adivinhar as profisses, as preocupaes e
at os crimes dos transeuntes.  uma espcie de secreta 
maneira de Sherlock Holmes, sem os inconvenientes dos
secretas nacionais. Haveis de encontr-lo numa bela noite,
numa noite muito feia. No vos saber dizer donde vem, que
est a fazer, para onde vai.
Pensareis decerto estar diante de um sujeito fatal? Coitado!
O flneur  o bonhomme possuidor de uma alma igualitria
e risonha, falando aos notveis e aos humildes com
doura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada
vez mais se convence da inutilidade da clera e da necessidade
do perdo.
Fundao Biblioteca Nacional do Livro, A alma encantadora das ruas  Departamento Nacional do
Livro  Ministrio da Cultura.
Texto 27 / Vida urbana
 Trabalho e tempo livre 54
Foto: Acervo Iconografia
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Tempo bem empregado
TEXTO 28
NINGUM
FAZ NADA
As bases da teoria
do cio criativo
do italiano
Domenico De Masi
Trabalho e Tempo Livre  55
Ilustrao: Alcy
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J imaginou passar a vida fazendo s o
que gosta? Mas e da, viveria do qu?
Sonhos? Se a gente pensar no trabalho
como um fardo, a situao realmente parece
impossvel. Mas e se o trabalho, o lazer e
o estudo comeassem a se misturar em nossas
vidas de tal forma que no desse mais
para diferenciar uma coisa da outra?
Essa  a proposta de Domenico De
Masi, socilogo italiano da Universidade La
Sapienza, de Roma. Ele ficou famoso por
defender a idia de que  hora de as pessoas
cultivarem o cio criativo para uma
nova era. Utopia? No. Cada vez mais
gente e empresas aderem aos seus conceitos
e se tornam mais felizes e produtivas.
De acordo com o socilogo, o cio criativo
 uma arte que se aprende e se aperfeioa
com o tempo e com o exerccio. 
necessrio reconhecer que o trabalho no 
tudo na vida e que existem outros grandes
valores: o estudo para produzir saber; a
diverso para produzir alegria; o sexo para
produzir prazer; a famlia para produzir
solidariedade etc.
Nenhum progresso, porm, acontece
automaticamente,  necessrio criar um
movimento de opinio e depois um grupo
de luta para colocar em prtica idias
inovadoras como essas.
O caso  que, em todo o mundo, a
economia convencional se baseia na forma
de trabalho como o que conhecemos hoje.
Ser que seria preciso, primeiro, acontecer
uma mudana no sistema econmico para
criar o ambiente propcio  concretizao
de idias como as de Domenico De Masi?
Ele acredita que as mudanas estruturais
e culturais se influenciam entre si e
espera que a difuso de suas idias consiga
formar um grupo crtico de pessoas dispostas
a mudar realmente o seu modelo de
vida e lutar para conquistar a felicidade.
www.nova-e.inf.br/exclusivas/domenicodemasi.htm
Texto 28 / Tempo bem empregado
 Trabalho e Tempo Livre 56
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Trabalho e Tempo Livre  57
Foto: Agliberto Lima / AE
Trabalho voluntrio
TEXTO 29
 Trabalho e Tempo Livre 57
O BRASIL DO BEM
Alexandra Trentine, do
Grupo Viva e Deixe Viver,
conta histrias e mostra
livros a Carlos Roberto, 7
anos, paciente do Hospital
do Cncer.
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Texto 29 / Trabalho voluntrio
 Trabalho e Tempo Livre 58
De acordo com a Organizao das Naes Unidas, a Onu,
entre cada grupo de 10 brasileiros, pelo menos dois
se dedicam a trabalhos sociais. Em algumas instituies,
existe at fila de espera para participar.
Acada ano aumenta o nmero de brasileiros
que dedicam parte do tempo
livre a trabalhos voluntrios. E esse
batalho de gente disposta a trocar horas
de lazer pelo auxlio ao prximo no pra
de crescer. Em 2000 eram 20 milhes; hoje,
est em torno de 42 milhes de pessoas.
Ou seja, de cada 10 brasileiros, pelo
menos dois fazem trabalho voluntrio. E h
filas de espera de interessados para ajudar
Organizaes No Governamentais
(ONGs), escolas, igrejas, creches e hospitais,
como no caso do Hospital Albert Einstein,
onde sempre h pelo menos duas
centenas de pessoas aguardando chamada.
O interesse dos jovens
Entre os jovens brasileiros, 54% gostariam
de fazer trabalho voluntrio, mas no
sabem por onde comear.
Assim, so 14 milhes de jovens e 10
milhes de adultos querendo ocupar seu
tempo livre dedicando-se aos necessitados.
Enquanto isso, as grandes empresas
nacionais gastam R$ 4 bilhes por ano em
segurana patrimonial e pessoal de seus
executivos e apenas R$ 5 mil por ms em
filantropia. De acordo com dados da Receita
Federal, a mdia para doaes e contribuies
 de apenas R$ 23 mil por ano
entre 5 milhes de brasileiros que pagam
imposto de renda.
Os contadores de histrias
O projeto Contadores de Histrias, da
Associao Viva e Deixe Viver, treina voluntrios
para contar histrias para crianas e
adolescentes internados em hospitais pblicos
e privados, para proporcionar-lhes
momentos alegres e, assim, contribuir para
a humanizao da sade.  um dos trabalhos
voluntrios mais bem-sucedidos e est
espalhado por todo o pas.
www.metaong.info
Por Lusa Alcalde
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59
Lazer e deficincia
TEXTO 30
DEFICINCIA
LAZER E O
PORTADORES
OS
DE
Privadas de outros direitos fundamentais,
as pessoas portadoras de deficincia quase no tm
oportunidades de vivenciar o lazer, seja por falta
de opes ou porque so impedidas de fazerem
escolhas  at mesmo pela prpria famlia.
Trabalho e Tempo Livre 
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Texto 30 / Lazer e deficincia
 Trabalho e Tempo Livre 60
Oprofessor Vincius Saviolli, coordenador
de lazer, recreao e esportes
na APABB - Associao de Pais, Amigos
e Pessoas com Deficincia, de Funcionrios
do Banco do Brasil e da Comunidade
Associao dos Pais e Amigos do Banco do
Brasil, em So Paulo, acha muito importante
o lazer sem fins teraputicos para pessoas
portadoras de deficincia: "A vida de
uma pessoa portadora de deficincia  toda
ela um processo de reabilitao. Dessa
forma, o lazer sem fins teraputicos faz,
inclusive, com que melhore o rendimento
nas terapias realizadas durante a semana,
alm de melhorar a auto-estima.
Conquistando afeto e incluso
Por meio de uma srie de eventos de
lazer, como tardes no clube, danceterias,
passeios e festas, as famlias da Apabb
puderam perceber a importncia dessas atividades
para o desenvolvimento dos seus
filhos, e a demanda cresceu, como conta
Vincius Saviolli. "As atividades de lazer,
sobretudo os acampamentos, comearam a
dar espao para os portadores de deficincias
se colocarem, terem iniciativas autnomas,
tornando-os mais independentes.
Partimos do pressuposto que esses jovens
podem fazer tudo, dentro de uma proposta
de lazer descompromissada com o desempenho
ou metas, com o nico objetivo de
dar satisfao."
Projeto Carona
Outra experincia com recreao para
portadores de deficincia que est dando
certo  o Projeto Carona, tambm em So
Paulo. Inicialmente, o servio oferecido era
o transporte de pessoas com limitaes fsicas.
Por solicitao de pais que tinham dificuldades
de levar os filhos com deficincias
para participar de programas culturais e de
lazer, os organizadores comearam a desenvolver
esse lado e, hoje, realizam passeios
e acampamentos em grupo todos os
finais de semana.
As resistncias iniciais, quase sempre
por parte dos pais, so semelhantes s que
acontecem na Apabb, nas primeiras vezes
que os filhos participam sozinhos do programas.
"Eles descobrem coisas que podem
fazer sem os pais, descobrem que podem
divertir-se longe das famlias", conta Roque
Jos da Rocha Filho, responsvel pela rea
de recreao do Projeto Carona. "A partir
da, a famlia percebe que a superproteo
 desnecessria, que o filho tem capacidades
que desconhecia."
Fazendo amigos
Quando a proposta  voltada para a
satisfao do grupo, comeam a se estabelecer
relaes de amizade, que  uma das
dificuldades da vida desses adolescentes e
jovens", ressalta Vincius. "Eles comeam a
sair juntos, telefonar-se, trocar informaes,
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Trabalho e Tempo Livre  61
angstias e alegrias. Nos acampamentos as
relaes so intensas, o tempo todo quebrando
a rotina rgida a que normalmente
esto submetidos. No Projeto Carona tambm
surgem amizades e namoros, como em
qualquer turma de jovens. "Formamos grupos
heterogneos e eles se do superbem.
Os menos comprometidos acabam ajudando
os outros, querem acompanhar os monitores,
criando um clima saudvel." Roque
destaca ainda o papel importante do papel
desse trabalho na incluso social. "Uma
coisa  sabermos que os portadores de deficincias
existem, outra,  v-los num show,
num teatro, passeando. Os empresrios de
lazer tambm j os descobriram como clientes
em potencial que, quando bem atendidos,
retornam. s vezes, a sociedade no
os inclui porque nem os v, pois a prpria
famlia promove a excluso."
O processo de incluso social tambm
 ressaltado por Vincius. "O domnio de
regras e comportamentos especficos necessrios
s propostas recreativas em geral
estimula a autoconfiana para que a pessoa
portadora de deficincia busque,
espontaneamente, participar das atividades
de lazer existentes na comunidade", diz o
coordenador. "Tornando-se til e participativa,
ela obtm de seu grupo social reconhecimento,
respeito e afeto. Conseqentemente,
torna-se agente ativo no processo
de incluso social."
APABB - Associao de Pais, Amigos e Pessoas com Deficincia,
de Funcionrios do Banco do Brasil e da Comunidade
O deficiente
fsico Carlos
Matos, de 19
anos, entrando
no carro do
programa
Projeto Carona,
com um dos
donos, o senhor
Roque.
Foto: Epitcio Pessoa / AE
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Para o socilogo argentino Jorge Werthein,
representante da Unesco (rgo
ligado  Organizao das Naes
Unidas - ONU) no Brasil, em poca de
desemprego, falar em lazer e tempo livre 
problemtico. Nesta entrevista, ele se mostra
esperanoso quando declara que "o
tempo livre que decorre do trabalho digno
no pode ser visto como condenao ao
desemprego"
O senhor acredita que os avanos tecnolgicos,
que teoricamente proporcionam
s pessoas mais tempo fora do trabalho,
representam um avano no aproveitamento
do tempo livre?
Por um lado, representa avano, sim,
na medida em que pode ampliar o tempo
livre, possibilitando o exerccio da criatividade
e da realizao pessoal. Por outro
lado, s a menor parte da populao trabalhadora
se beneficia do tempo livre, o que
representa um problema e uma limitao.
Qual deve ser a orientao para que
o tempo livre seja melhor aproveitado?
Muitos estudiosos proclamam o trabalho
como necessidade humana bsica.
Nessa perspectiva, o tempo livre  definido
como um modo de recuperar as foras produtivas,
ou seja, descansar para poder produzir.
O declnio do emprego, por causa do
avano da cincia e da tecnologia e dos
modelos de desenvolvimento que a gente
v - que concentram decises tecnolgicas
e lucros, comea a abalar os padres da
livre concorrncia. E o tempo livre tambm
pode ser visto como um produto do sistema
capitalista, como objeto de explorao
capitalista.
De que maneira isso ocorre?
Pela propaganda de valores que tenham
efeitos positivos no aumento da produo
e do consumo. Mas  preciso reconhecer
que essa interpretao  parcial,
pois no considera a prpria luta histrica
dos trabalhadores pela reduo da jornada
de trabalho. De mais de setenta horas
LAZER X CRISE ECONMICA
Na crise, enquanto os trabalhadores
s pensam em no perder o emprego,
alguns patres consideram que o
melhor aproveitamento do tempo
livre traz como conseqncia,
melhor rendimento no trabalho.
Direito ao lazer
TEXTO 31
 Trabalho e Tempo Livre 62
Ilustrao: Alcy
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semanais de trabalho em meados do sculo
passado, a jornada em muitos pases j
est hoje abaixo de quarenta horas. Essa
conquista dos trabalhadores permitiu o
desenvolvimento de uma cultura do lazer.
As pessoas comuns passaram a ter acesso a
determinados bens da civilizao antes
reservados apenas s camadas dominantes
da sociedade. Ao mesmo tempo, surgiram
inmeras instituies sociais promotoras do
lazer que imprimiram uma dimenso cultural
ao tempo livre. Mas essa dimenso do
lazer comea a sofrer os primeiros reveses,
pois o processo de globalizao aumenta
sua velocidade, os modos de produo
mudam e a crise do desemprego aumenta
e se universaliza.
Existe um preconceito que marginaliza
o tempo livre como fator negativo para
o desenvolvimento das pessoas. Ainda se
relaciona tempo livre com o cio?
O tempo livre s ser negativo na
medida em que se reduzir a uma sociedade
de consumo. Quem v o tempo livre
apenas como cio esquece-se de que a prpria
Declarao Universal dos Direitos do
Homem. Toda pessoa tem direito a repouso
e lazer, inclusive  limitao razovel
das horas de trabalho e a frias peridicas
remuneradas.
Por causa das jornadas excessivas de
trabalho, tempo gasto na conduo,
entre outros fatores, os trabalhadores
no conseguem adquirir crescimento
cultural. Como corrigir essa defasagem?
O crescimento cultural dos excludos
representa um dos maiores desafios do
nosso tempo. S uma nova tica das relaes
internacionais, que permita a reduo
das desigualdades entre os povos,
poder viabilizar o retorno da dimenso
humana do desenvolvimento.
Como a Unesco interpreta a questo
do lazer, do trabalho e do tempo livre?
O mundo atual mostra preocupao
com essas questes?
A Unesco luta incessantemente em vrias
frentes para que os direitos humanos
sejam respeitados. Luta por um direito que
tenha compromisso com a tica e no com a
futilidade e a vida sem sentido, banalizada.
Todos os compromissos da Unesco tm
algum tipo de relao com o problema do
desemprego e do tempo livre. Educao,
cincia, cultura, direitos humanos, tudo
isso envolve, de alguma maneira, a questo
do trabalho e do lazer. Todo o esforo
da Unesco, desde quando foi criada, logo
aps a Segunda Guerra Mundial, tem sido
no sentido de promover a paz e a justia
social por meio de diversas formas de intercmbio
cientfico e cultural e compromissos
pblicos entre seus Estados-membros.
Adaptao da entrevista concedida  Fernanda Oshino, para a
revista Sesc nmero 18.
Trabalho e Tempo Livre  63
31CA07T40P2.qxd 12/15/06 7:12 PM Page 63
Expediente
Comit Gestor do Projeto
Timothy Denis Ireland (Secad  Diretor do Departamento da EJA)
Cludia Veloso Torres Guimares (Secad  Coordenadora Geral da EJA)
Francisco Jos Carvalho Mazzeu (Unitrabalho)  UNESP/Unitrabalho
Diogo Joel Demarco (Unitrabalho)
Coordenao do Projeto
Francisco Jos Carvalho Mazzeu (Coordenador Geral)
Diogo Joel Demarco (Coordenador Executivo)
Luna Kalil (Coordenadora de Produo)
Equipe de Apoio Tcnico
Adan Luca Parisi
Adriana Cristina Schwengber
Andreas Santos de Almeida
Jacqueline Brizida
Kelly Markovic
Solange de Oliveira
Equipe Pedaggica
Cleide Lourdes da Silva Arajo
Douglas Aparecido de Campos
Eunice Rittmeister
Francisco Jos Carvalho Mazzeu
Maria Aparecida Mello
Equipe de Consultores
Ana Maria Roman  SP
Antonia Terra de Calazans Fernandes  PUC-SP
Armando Lrio de Souza  UFPA  PA
Clia Regina Pereira do Nascimento  Unicamp  SP
Eloisa Helena Santos  UFMG  MG
Eugenio Maria de Frana Ramos  UNESP Rio Claro  SP
Giuliete Aymard Ramos Siqueira  SP
Lia Vargas Tiriba  UFF  RJ
Lucillo de Souza Junior  UFES  ES
Luiz Antnio Ferreira  PUC-SP
Maria Aparecida de Mello  UFSCar  SP
Maria Conceio Almeida Vasconcelos  UFS  SP
Maria Mrcia Murta  UNB  DF
Maria Nezilda Culti  UEM  PR
Ocsana Sonia Danylyk  UPF  RS
Osmar S Pontes Jnior  UFC  CE
Ricardo Alvarez  Fundao Santo Andr  SP
Rita de Cssia Pacheco Gonalves  UDESC  SC
Selva Guimares Fonseca  UFU  MG
Vera Cecilia Achatkin  PUC-SP
Equipe editorial
Preparao, edio e adaptao de texto:
Editora Pgina Viva
Reviso:
Ivana Alves Costa, Marilu Tassetto,
Mnica Rodrigues de Lima,
Sandra Regina de Souza e Solange Scattolini
Edio de arte, diagramao e projeto grfico:
A+ Desenho Grfico e Comunicao
Pesquisa iconogrfica e direitos autorais:
Companhia da Memria
Fotografias no creditadas:
iStockphoto.com
Apoio
Editora Casa Amarela
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro. SP, Brasil)
Tempo livre e trabalho / [coordenao do projeto
Francisco Jos Carvalho Mazzeu, Diogo Joel Demarco,
Luna Kalil]. -- So Paulo : Unitrabalho-Fundao
Interuniversitria de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho ;
Braslia, DF : Ministrio da Educao. SECAD-Secretraria de
Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade, 2007,
-- (Coleo Cadernos de EJA)
Vrios colaboradores.
Bibliografia.
ISBN 85-296-0065-7 (Unitrabalho)
ISBN 978-85-296-0065-9 (Unitrabalho)
1. Lazer 2. Livros-texto (Ensino Fundamental)
3. Trabalho I. Mazzeu, Francisco Jos Carvalho.
II. Demarco, Diogo Joel. III. Kalil, Luna. IV. Srie.
07-0419 CDD-372.19
ndices para catlogo sistemtico:
1. Ensino integrado : Livros-texto :
Ensino fundamental 372.19
eja_expediente_Tempo_2385.qxd 1/26/07 3:33 PM Page 64
Cadernos de a
COLE

O
Tempo livre
e Trabalho
CA07_eja_iniciais.qxd 12/13/06 9:47 PM Page 1
pagbranca.qxd 22.01.07 17:57 Page 1
Ao longo de sua histria, o Brasil tem enfrentado o problema da excluso social que
gerou grande impacto nos sistemas educacionais. Hoje, milhes de brasileiros ainda
no se beneficiam do ingresso e da permanncia na escola, ou seja, no tm acesso a um
sistema de educao que os acolha.
Educao de qualidade  um direito de todos os cidados e dever do Estado; garantir o
exerccio desse direito  um desafio que impe decises inovadoras.
Para enfrentar esse desafio, o Ministrio da Educao criou a Secretaria de Educao
Continuada, Alfabetizao e Diversidade  Secad, cuja tarefa  criar as estruturas necessrias
para formular, implementar, fomentar e avaliar as polticas pblicas voltadas para os grupos
tradicionalmente excludos de seus direitos, como as pessoas com 15 anos ou mais que no
completaram o Ensino Fundamental.
Efetivar o direito  educao dos jovens e dos adultos ultrapassa a ampliao da oferta
de vagas nos sistemas pblicos de ensino.  necessrio que o ensino seja adequado aos que
ingressam na escola ou retornam a ela fora do tempo regular: que ele prime pela qualidade,
valorizando e respeitando as experincias e os conhecimentos dos alunos.
Com esse intuito, a Secad apresenta os Cadernos de EJA: materiais pedaggicos para o
1. e o 2. segmentos do ensino fundamental de jovens e adultos. Trabalho ser o tema da
abordagem dos cadernos, pela importncia que tem no cotidiano dos alunos.
A coleo  composta de 27 cadernos: 13 para o aluno, 13 para o professor e um com
a concepo metodolgica e pedaggica do material. O caderno do aluno  uma coletnea
de textos de diferentes gneros e diversas fontes; o do professor  um catlogo de atividades,
com sugestes para o trabalho com esses textos.
A Secad no espera que este material seja o nico utilizado nas salas de aula. Ao contrrio,
com ele busca ampliar o rol do que pode ser selecionado pelo educador, incentivando
a articulao e a integrao das diversas reas do conhecimento.
Bom trabalho!
Secretaria de Educao Continuada,
Alfabetizao e Diversidade  Secad/MEC
Apresentao
CA_iniciais_pag3.qxd 21.01.07 14:38 Page 3
Sumrio
TEXTO Subtema
1. O mito de SsifoRelicostumes 6
2. cio & Negcio 9
3. Tempo rei Diversidades regionais 10
4. Ursa maior Maturidade social 12
5. Benedito da CatiraMiscigenao 14
6. Dilbert Crtica social 17
7. Histria contempornea Trabalhadores 18
8. Contra o tempo Cultura suburbana 20
9. Dilberta luta dos negros 21
10. Parque de diverses Ambiente de trabalho 22
11. A histria do lazer Identidade nacional 24
12. A vida  melhor com lazer commbiente de trabalho 26
13. Lazer e batente ndios do Brasil 28
14. No caladoImigrao e culinria 29
15. Carnaval ou o mundo como teatro e prazer Direitos civis 30
CA07_eja_iniciais.qxd 12/13/06 9:47 PM Page 4
16. Turismo Origens dos trabalhadores 33
17. Hasta la vista, siestandios do Brasil 34
18. Viver tambm  preciso 36
19. At segunda-feira Olhos da alma 37
20. Homenagem ao malandro Arte culinria 38
21. PescariaArte culinria 39
22. O esprito carnavalescoArte culinria 40
23. Domingo no parque Arte culinria 42
24. Tempo curto Arte culinria 44
25. Eu e outros poemas Arte culinria 45
26. Brasil dos Ronaldos Arte culinria 46
27. A rua Arte culinria 48
28. Ningum faz nada Arte culinria 55
29. O Brasil do bem Arte culinria 57
30. Os portadores de deficincia e o lazer Arte culinria 59
31. O lazer e a crise econmica Arte culinria 62
CA07_eja_iniciais.qxd 12/13/06 9:47 PM Page 5
Ssifo, mtico fundador da cidade de
Corinto, foi o mais astuto dos mortais.
Viu acidentalmente quando Zeus raptou
Egina, filha do Rio Asopo, e delatou o
raptor ao pai da moa em troca de uma nascente
que Asopo fez brotar na cidadela de
Corinto.
Zeus, encolerizado, enviou Tnato, a
morte, para busc-lo, mas de algum modo
Ssifo conseguiu enganar e prender Tnato.
Como ningum mais morria, Hades estrilou
e Zeus providenciou a libertao de
Tnato. Tnato imediatamente capturou
seu captor e Ssifo baixou ao Hades.
Sofrimento e alegria
TEXTO 1
 Trabalho e Tempo Livre 6
De como enganar a morte
e ser punido com uma tarefa
interminvel, segundo a
mitologia grega
O MITO DE SSIFO
Ilustrao: Alcy
1CA07T23P2.qxd 21.01.07 22:26 Page 6
O precavido Ssifo, no entanto, avisara
a esposa Mrope para no prestar-lhe as
usuais honras fnebres, de modo que
Hades, indignado, no podia receb-lo no
mundo subterrneo. Ssifo desculpou-se
humildemente com o deus e garantiu-lhe
que, se pudesse voltar, puniria a sacrlega
esposa por sua impiedade e resolveria o
problema. O deus concordou, e o espertalho
voltou tranqilamente ao mundo da
superfcie e viveu ainda muitos anos...
Algum tempo depois, o mais esperto e
bem-sucedido ladro da Grcia, Autlico,
filho de Hermes e vizinho de Ssifo, tentou
roubar-lhe o gado. As reses desapareciam
sistematicamente sem que se encontrasse o
menor sinal do ladro, porm Ssifo ficou
desconfiado porque o rebanho de Autlico
aumentava  medida que o seu diminua.
Mas Ssifo era um homem letrado (foi,
aparentemente, um dos primeiros gregos a
dominar a escrita) e deu um jeito de marcar
os cascos dos animais com sinais de modo
que,  medida que o gado se afastava de
seu curral, aparecia no cho a frase Autlico
me roubou...
Mas os dois acabaram se entendendo e
ficaram amigos. Certas verses relatam que
da unio entre Ssifo e Anticlia, filha de
Autlico, nasceu Odisseu, um dos principais
heris da mitologia grega.
As vitrias dos mortais contra os deuses,
no entanto, duram pouco. Ssifo morreu
de velhice e voltou ao Hades pelas vias
normais. Por precauo, foi condenado a
uma tarefa contnua e eterna, que no lhe
deixava tempo para descansar ou pensar
em fugas: empurrar um pesado rochedo
para o alto de um morro.
O detalhe torturante  que essa pedra
tinha um peso calculado de tal forma que,
a poucos metros do cume, faltavam foras
a Ssifo e a pedra rolava encosta abaixo,
comeando tudo outra vez, pela eternidade.
A expresso hoje designa qualquer
trabalho que parea interminvel; por
exemplo, manter o quarto em ordem  um
verdadeiro trabalho de Ssifo, pois ele
comea a desarrumar-se assim que voltamos
as costas.
Trabalho e Tempo Livre  7
Adaptado de http://www.geocities.com/serouseja/camus/sisifo.htm
Foto: Xxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxx
1CA07T23P2.qxd 12/15/06 10:25 PM Page 7
 Trabalho e Tempo Livre 8
Filsofo e escritor argelino, filho de pais franceses (1913
/1960),  autor, entre outros textos, de O estrangeiro, no
qual descreve a vida absurda de um funcionrio argelino que
vive em Paris e acaba se tornando assassino de um rabe.
Eu vejo aquele homem descendo
com um passo muito medido, em direo
ao tormento que ele sabe que nunca ter
fim. Aquela hora, que  como um momento
de respirao, que sempre voltar
assim como seu sofrimento;  a hora da
conscincia. Em cada um desses momentos,
quando deixa as alturas e gradualmente
mergulha no covil dos deuses, ele
 superior ao seu destino. Ele  mais forte
do que sua pedra. Se este mito  trgico,
 porque seu heri  consciente. Onde
estaria realmente sua tortura se a cada
passo a esperana de prosperar o sustentasse?
O trabalhador de hoje trabalha
todos os dias de sua vida nas mesmas
tarefas, e seu destino no  menos absurdo.
Mas  trgico apenas nos raros momentos
em que ele toma conscincia. Ssifo,
proletrio dos deuses, impotente e rebelde,
sabe a total extenso de sua miservel
condio:  nisso que ele pensa
durante sua descida. A lucidez que deveria
constituir sua tortura ao mesmo tempo
coroa sua vitria. No h destino que
no possa ser superado pelo desprezo.
Se, dessa maneira, a descida  realizada
s vezes com tristeza, tambm pode ser
realizada com alegria.
Adaptado por Pgina Viva do site
www.geocities.com/serouseja/camus/sisifo.htm
Texto 1 / Sofrimento e alegria
Albert Camus
Albert Camus
SSIFO
1CA07T23P2.qxd 21.01.07 22:28 Page 8
Trabalho e Tempo Livre  9
Desde as mais antigas civilizaes existe
diviso entre aqueles que mandam  e
portanto pensam, concebem, inventam
 e os que s obedecem e executam.
Entre os romanos, o trabalho para sustentar
a vida era identificado  palavra negcio,
literalmente, negao do cio. O cio
significava, para os antigos, a forma nobre e
digna de ocupar o tempo livre com o lazer, a
arte do governo e a reflexo. Enquanto isso,
as atividades relacionadas diretamente com
a sobrevivncia material ficavam a cargo dos
escravos, cujas funes eram consideradas
desprezveis.
 primeira vista at poderamos admitir
que seria um desenvolvimento natural da
civilizao, j que alguns teriam melhor
capacidade para o pensar, enquanto outros
s desempenhariam bem os trabalhos manuais.
O olhar mais atento constata, no entanto,
que a sociedade descobre mecanismos
para manter a diviso no conforme os
talentos, mas sim de acordo com a classe a
que cada um pertence.
Um dos instrumentos de manuteno
desse estado de coisas  a educao, privilgio
daqueles que so proprietrios. No
por acaso, a palavra grega schol, de onde
deriva escola, significa, inicialmente, o
lugar do cio. A as crianas das classes
abastadas se ocupam com jogos, ginstica,
msica e retrica, enquanto as demais, pertencentes
aos segmentos pobres, seguem
seu destino social, sem que se levem em
conta as tendncias individuais. Nesse caso,
ou so excludas da escola, ou se encaminham
para a aprendizagem de um ofcio.
Assim se mantm a separao entre
trabalho intelectual e trabalho manual, a escola
funcionando como um divisor de guas.
Fonte: Trabalho em Debate  Organizao de Mrcia Kupstas/
Editora Moderna  So Paulo, 1998, pgs. 26 e 27
O direito ao lazer
TEXTO 2
O conceito romano que
separa os pobres e escravos
pela forma como empregam
seu tempo ainda vigora
CIO&
Ilustrao: Alcy
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Mudanas inevitveis
TEXTO 3
 Trabalho e Tempo Livre 10
TEMPO
REI Gilberto Gil
3CA07T06P2.qxd 12/13/06 9:11 AM Page 10
No me iludo
Tudo permanecer do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espao navegando todos os sentidos
Pes de Acar
Corcovados
Fustigados pela chuva e pelo eterno vento
gua mole
Pedra dura
Tanto bate que no restar nem pensamento
Tempo rei, , tempo rei, , tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, , pai, o que eu ainda no sei
Me Senhora do Perptuo, socorrei
Pensamento
Mesmo o fundamento singular do ser humano
De um momento
Para o outro
Poder no mais fundar nem gregos nem baianos
Mes zelosas
Pais corujas
Vejam como as guas de repente ficam sujas
No se iludam
No me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo
Tempo rei, , tempo rei, , tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, , pai, o que eu ainda no sei
Me Senhora do Perptuo, socorrei
Trabalho e Tempo Livre  11
Gilberto Gil, Cd Raa Humana
3CA07T06P2.qxd 12/13/06 9:11 AM Page 11
Macunama se arrastou at a tapera sem gente agora.
Estava muito contrariado porque no compreendia
o silncio. Ficara defunto sem choro, no abandono
completo. Os manos tinham ido-se embora transformados
na cabea esquerda do urubu-ruxama e nem sequer a gente
encontrava cunhas por ali. O silncio principiava cochilando
 beira-rio do Uraricoera. Que enfaro! E principalmente,
ah!... que preguia!...
Macunama foi obrigado a abandonar a tapera cuja ltima
parede tranada com palha de catol estava caindo. Mas o
impaludismo no lhe dava coragem nem pra construir um
papiri. Trouxera a rede para o alto dum teso onde tinha uma
pedra com dinheiro enterrado por debaixo. Amarrou a rede
nos dois cajueiros frondejando e no saiu mais dela por muitos
dias dormindo caceteado e comendo cajus. Que solido! O
prprio squito sarapintado se dissolvera. No v que um
ajuru-catinga passara muito afobado por ali. Os papagaios
perguntaram pro parente onde que ia.
 Madurou milho na terra dos ingleses, vou pra l!
Cultura popular
TEXTO 4
 Trabalho e Tempo Livre 12
URSA MAIOR
Mrio de Andrade
MACUNAMA
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Ento todos os papagaios foram comer milho na terra
dos ingleses. Porm, primeiro viraram periquitos porque,
assim, comiam e os periquitos levavam a fama. S ficara
um arua muito falador. Macunama se consolou pensamenteando:
"O mal ganhado, diabo leva... pacincia". Passava
os dias enfarado e se distraa fazendo o pssaro repetir
na fala da tribo os casos que tinham sucedido pro heri
desde infncia. Aaaah... Macunama bocejava escorrendo
caju, muito mole na rede, com as mos pra trs fazendo
cabeceiro, o casal de legornes empoleirado nos ps e o
papagaio na barriga. Vinha a noite. Aromado pelas frutas
do cajueiro o heri ferrava no sono bem. Quando a arraiada
vinha o papagaio tirava o bico da asa e tomava o caf da
manh devorando as aranhas que de noite fiavam as teias
dos ramos pro corpo do heri. Depois falava:
 Macunama!
O dorminhoco nem se mexia.
 Macunama! h Macunama!
 Deixa a gente dormir, arua...
 Acorda, heri!  de-dia!
 Ah... que preguia!...
Pouca sade e muita sava,
Os males do Brasil so!....
Trabalho e Tempo Livre  13
Macunama. 30. ed. Villa Rica: Minas Gerais,1997
Acervo Iconographia
O escritor Mrio de Andrade
4CA07T04P3.qxd 12/14/06 12:53 AM Page 13
Cultura popular
TEXTO 5
 Trabalho e Tempo Livre 14
BENEDITO
DA
CATIRA
Benedito Marcondes encosta a carroa no ponto da avenida
Francisco Salles, no centro de Poos de Caldas, Minas
Gerais, e salta sorridente, o chapu colocado, num precrio
equilbrio, no alto da cabea.  quase meio-dia e
Benedito chega de um carreto que foi fazer, transportando
material de construo para o bairro da Cascatinha. Pendurada
no galho de uma rvore, sua marmita de comida quente o
espera, trazida h pouco por um outro carroceiro.
Eu sou o Benedito Violeiro, tem gente que me chama de
Benedito do Catira, outra hora sou o Benedito do Congo. Mas
qualquer nome me serve, que eu gosto de tudo quanto 
dana, e por isso o pessoal me chama assim.
Sentado  sombra de uma rvore,  beira do canal que
corta a cidade, Benedito tem o sotaque carregado do mineiro
Foto: Luciano Coca / Chromafotos / AE
5CA07T05P3.qxd 12/14/06 12:57 AM Page 14
Trabalho e Tempo Livre  15
da roa: Eu sou nascido aqui perto, na cidade de Caldas,
num stio l, que era do meu pai. Sempre morei na roa, mas
um dia tive que vir pra cidade por causa da doena da mulher,
que os mdicos precisava ficar mais perto pra tratar dela. J
faz 9 anos que eu mudei. Mas logo a mulher me deixou vivo,
com meus sete filhos para criar e a a luta foi dura. Mas nunca
deixei de danar, no, que danar o catira, o congo, a Folia
de Reis  uma devoo. A gente canta e dana sempre em
homenagem ao Santo.  uma maneira que o povo tem de
rezar, e eu acho que agrada mais ao Santo que muito palavrrio.
Mas tambm eu nasci e j achei o catira dentro de
casa. Meu av, meu pai, tudo danava. Eu comecei desde os
7 anos, que decerto minha raa  essa, de gostar de msica,
de dana. Desde pequeno vinha aquela inclinao na minha
idia. Quando panhei uma idade maiorzinha, comprei uma
violinha e fui conversando com ela, conversando, at que
aprendi a tocar umas modas. A, pro catira, comecei a inventar
umas msica minha tambm, pra mode cantar as coisas
nossas, e o pessoal gostou, foi indo. No catira a gente tem
que cantar msica prpria, de moda de viola mesmo. Tem
muitas, umas bonitas do Vieira e Vieirinha, do Moreno e
Moreninho, tem umas que a gente nem sabe quem fez, mas
canta desde o tempo do meu av. Agora a gente tambm
escreve muito, faz da idia da gente.
Aqui em Poos num tem grupo de catireiro; o nico que
tem por a  o nosso, dos roceiro l de Caldas, trs lguas
daqui. Eu sempre vou l danar, quando eles precisa de mim
e me chama. Quando eu quero eles vm aqui. Mora tudo nas
roas, l perto de Caldas. Eu no sei no, mas parece que o
pessoal da roa desenvolve melhor essa dana do catira. O
povo da cidade quase nem liga.
Quando panhei
uma idade
maiorzinha, comprei
uma violinha e fui
conversando com ela,
conversando...
5CA07T05P3.qxd 12/14/06 12:57 AM Page 15
Texto 5 / Cultura popular
 Trabalho e Tempo Livre 16
O sol est quente e Benedito levanta-se para dar gua ao
cavalo, num balde que est junto ao p da rvore.
A gacho, bebe, bebe... Benedito fala macio com o
cavalo, um cavalo ruo, marchetado de cinza. Esse cavalinho
 bom de carroa, s tem me dado alegria. Tem 7 anos...
 mais novo do que eu. Benedito abre ainda mais o sorriso
que nunca abandona sua cara alegre. J completei meus 49
anos e hoje posso dizer que sou feliz, criei meus filhos tudo,
minha nica tristeza  a viuvez, mas fazer o qu? Eu sempre
enfrentei todo servio, qualquer coisa que for preciso, mas
uma coisa que eu sempre quis foi ficar com a minha dana,
com o catira. O meu servio de carroceiro, muita gente ri de
ns, falando que  tempo de caminho, que num tem mais
lugar pra carroa no. Pois eu acho que tem. Porque se um
sujeito compra a um saco de cimento, uns pedao de tbua,
pruma reforma, qualquer coisa, e vai pagar o frete do caminho
pra levar, acho que paga mais caro que o preo do
cimento. E esses mais pobres, que precisa fazer uma mudancinha,
levar os trem dele num lugar pro outro, pode l pagar
frete de caminho? Agora ns, no, a gente combina com o
fregus, conforme a distncia, o preo justo.  um ganho
bom. E depois o servio  livre,  da gente, num tem patro,
essas coisas. Eu at essa idade de hoje, regulei minha vida
pela minha mo mesmo.
Cena brasileira  artistas e festas populares.
So Paulo: Brasiliense, 1977.
Eu no sei no,
mas parece que o
pessoal da roa
desenvolve melhor
essa dana
do catira. O povo
da cidade quase
nem liga.
5CA07T05P3.qxd 12/14/06 12:57 AM Page 16
Famlia
TEXTO 6
DILBERT Scott Adams
Trabalho e tempo livre  17
6CA07T06P3.qxd 21.01.07 22:29 Page 17
Qualidade de vida
TEXTO 7
 Trabalho e Tempo Livre 18
Ilustrao: ALcy
7CA07T07P3.qxd 12/13/06 10:02 AM Page 18
Orico industrial ficou horrorizado ao encontrar um pescador
deitado indolentemente ao lado de seu barco, fumando
um cachimbo.
 Mas por que voc no est pescando?
 Porque j peguei peixe suficiente para hoje.
 E por que voc no sai para pegar mais peixes?
 O que eu faria com eles?
 Ora, voc poderia ganhar dinheiro vendendo-os  explicou
o industrial.  Com o dinheiro poderia consertar o motor
do barco, ir a guas mais profundas e pescar ainda mais peixe.
Teria ento dinheiro para comprar redes de nylon. O que lhe
traria ainda mais peixes e mais dinheiro. Logo teria dinheiro
para possuir dois barcos... talvez uma frota de barcos. E seria
um homem rico como eu.
 E o que eu faria ento?
 Ora, voc poderia ento realmente gozar a vida.
 E o que voc acha que eu estou fazendo agora?
Histrias da alma, histrias do corao, compiladas por
Christina Feldman e Jack Kornfield So Paulo: Pioneira, 1994.
Trabalho e Tempo Livre  19
HISTRIA
CONTEMPORNEA
7CA07T07P3.qxd 12/13/06 10:02 AM Page 19
Quanto tempo mais
Quanto tempo faz
Quanto tempo vem
Quanto tempo ainda tem... pra acabar
Tempo que ningum vai apagar
Sei l... melhor deixar o tempo passar
D tempo ao tempo, e ele passa correndo
Sentado numa cadeira tipo quem fica s vendo
Podendo eu o parava mas no posso
Por isso rezo espero que tudo melhore logo
Rveillon fao meus votos
E pedido sobre os fogos, apagando anos passados
Com pedido para os novos e do incio aos jogos
Os mesmos de sempre, agindo igual e pedindo um ano diferente
Que tudo seja melhor daqui pra frente (...)
Qualidade de vida
TEXTO 8
 Trabalho e Tempo Livre 20
CONTRA O TEMPO
Quinto Andar
Uma banda canta
sobre esperar ou
fazer acontecer
Publicado na revista Caros Amigos, no 48, maro de 2001.
8CA07T08P3.qxd 12/13/06 10:46 AM Page 20
Trabalho e Tempo Livre  21
Famlia
TEXTO 9
DILBERT Scott Adams
9CA07T09P3.qxd 21.01.07 22:30 Page 21
Ele saiu com sua melhor roupa, de mos dadas com o filho
maior, e o menor no colo. Deu um beijo na mulher, ela
sorriu, enxugou as mos na barra da saia e foi olhar da
porta a sada alegre da famlia. Era um domingo de cu azul.
Todos os domingos ele fazia o mesmo trajeto com os filhos.
Atravessou a rua com as duas crianas no colo para no
sujarem os nicos sapatos que tinham. Os vizinhos acenaram.
Ele comprou a passagem com tquetes e esperou meia hora na
estao, at que o trem apareceu, vazio. Entrou no vago,
sentou-se com os filhos e fizeram a viagem em silncio. As
crianas, absortas, olhavam a paisagem que se tornava cada
vez mais urbana: carros, ruas asfaltadas e edifcios. Saltaram
na ltima estao.
Caminharam algumas quadras, atravessaram ruas, praas
e chegaram ao ponto de nibus. Esperaram quase uma hora,
as crianas impacientes reclamaram de sede, e ele foi a uma
padaria, pediu um copo de gua e deu de beber aos filhos. As
crianas pediram um sonho, mas ele explicou que no tinha
dinheiro. Voltaram ao ponto. O nibus apareceu. Subiram e
viajaram mais algum tempo. Cansadas, as crianas adormeceram.
O nibus chegou ao centro da cidade.
Saltaram no ponto da praa. Ele deitou as crianas num
banco e esperou. As crianas acordaram e quiseram olhar os
pombos, que comiam milho jogado por um mendigo. Ele disse:
Vamos logo, estamos perto. Atravessaram um labirinto de
 Trabalho e Tempo Livre 22
PARQUE DE D
Ana Miranda
Qualidade de vida
TEXTO 10
10CA07T10P3.qxd 12/13/06 10:55 AM Page 22
ruas estreitas e desertas, com as grades das lojas abaixadas.
Cruzaram a larga avenida central e chegaram ao destino. De
mos dadas com o filho maior e o menor no colo, ele entrou
no edifcio. O vigia acenou. Faxineiros varriam a rampa. Excitadas,
as crianas sorriam. Ele desceu a escada rolante em
silncio, as crianas absortas. Ao final, fizeram a volta e subiram
a escada rolante. Desceram e subiram durante mais de
uma hora. Ele disse que estava na hora de voltar.
Cruzaram a avenida, o labirinto de ruas, beberam gua
na padaria, tomaram o nibus, o trem, as ruas de lama, e ao
entardecer chegaram em casa, cansados e felizes.
Trabalho e Tempo Livre  23
IVERSES
Publicado na revista Caros Amigos, no 48, maro de 2001.
10CA07T10P3.qxd 12/13/06 10:55 AM Page 23
Na Grcia antiga dava-se mais valor ao cio do que
ao trabalho, principalmente entre os atenienses,
j que os espartanos eram guerreiros. O cotidiano
do povo grego acontecia fundamentalmente nos
ginsios esportivos, nas termas, no frum ou outros
lugares de reunio.
Interessante notar que a palavra cio, em grego, 
skole; de onde deriva a palavra escola em portugus,
que em latim  schola e em castelhano, escuela. Quer
dizer, os nomes dados aos lugares destinados  educao
significavam cio para os gregos. Assim, eles
consideravam o cio como algo a ser alcanado e
desfrutado.
Para o filsofo Aristteles, o cio era uma condio
ou estado  o estado de estar livre da necessidade
de trabalhar. Ele fala tambm da vida ociosa em
contraposio  vida de ao, entendendo por ao as
atividades dirigidas para obteno de fins materiais.
No considerava cio a diverso ou o recreio, porque
eram atividades diretamente relacionadas com
descanso do trabalho; e a capacidade de viver devidamente
o cio era a base do homem livre e feliz.
O conceito do tempo livre
TEXTO 11
 Trabalho e Tempo Livre 24
Para os gregos,
o cio no significava
no fazer nada,
mas sim dedicar-se
s idias
e ao esprito
A HISTRIA DO LAZER
11CA07T11P3.qxd 12/13/06 11:16 AM Page 24
Trabalho e Tempo Livre  25
Adaptado por Pgina Viva da revista Partes,
Raulito Ramos Guerra Filho, mestre em Lazer
pela Universidade de Campinas.
J o conceito de cio dos romanos na
Idade Mdia era que as pessoas muito
ocupadas buscavam-no no como um fim,
mas como descanso e diverso no intervalo
de suas diversas atividades  exrcito,
comrcio, governo.
De acordo com estudiosos, a vida de
cio dos gregos s foi possvel por causa da
escravido, pois na poca havia duas classes
de homens: os dedicados  arte,  contemplao
ou  guerra; e os que eram obrigados
a trabalhar, inclusive em condies
precrias: os escravos.
Para os gregos, o cio no significava
no fazer nada, mas sim dedicar-se s idias
e ao esprito, na contemplao da verdade,
do bem e da beleza, de forma no utilitria.
O conceito de lazer
Vrios autores e o cidado comum utilizam diferentes
termos para se referir ao tempo livre:
P cio (do latim otiu) = vagar, descanso,
repouso, preguia;
P Ociosidade (do latim otiositate) = o vcio de gastar
tempo inutilmente, preguia;
P Descanso = repouso, sossego, folga, vagar,
pausa, apoio, demora;
P Lazer (do latim licere) = cio, vagar.
Fazendo convergir as diversas expresses, podemos
considerar a ausncia de qualquer atividade concreta,
ou seja, certa liberdade de no fazer coisa
alguma. Surge de forma clara uma tentativa de definir
certo tempo (fora das ocupaes dirias) em
contraponto com o outro tempo (o das ocupaes
dirias). Assim, o conceito tempo livre parece
aquele que melhor corresponde  necessidade de
batizar a parte do dia em que no estamos ocupados
com atividades definidas.
O conceito mais aceito a respeito do lazer  o do
socilogo francs Joffre Dumazedier: um conjunto
de ocupaes s quais o indivduo pode entregar-se
de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-
se, recrear-se e entreter-se ou, ainda, para desenvolver
sua informao ou formao desinteressada,
sua participao social voluntria ou sua livre capacidade
criadora, aps livrar-se ou desembaraar-se
das obrigaes profissionais, familiares e sociais.
www.partes.com.br
11CA07T11P3.qxd 21.01.07 22:31 Page 25
Embora a diverso faa parte da natureza
humana, as necessidades da vida
moderna acabam impondo obrigaes
que limitam as escolhas sobre o que fazer
com o nosso tempo. Assim, o lazer acaba
sendo deixado em segundo plano, ou realizado
de maneira inadequada; e, infelizmente,
substitudo pela correria, o stress e vrias
doenas "modernas", hoje comuns entre os
adultos e at em crianas, sobretudo para
os que vivem nos grandes centros urbanos.
A VIDA 
MELHOR
COM
A busca do lazer  uma
atitude natural do ser
humano, j que,
espontaneamente,
sempre preferimos nos
ocupar com o que nos
proporciona prazer.
Sade e lazer
TEXTO 12
 Trabalho e Tempo Livre 26
LAZER
12CA07T12P3 12/13/06 12:17 PM Page 26
Trabalho e Tempo Livre  27
O direito ao lazer
O tempo gasto com alimentao, higiene,
sono e outras necessidades fisiolgicas
 considerado tempo gasto com as necessidades
bsicas vitais. Alguns especialistas
defendem que o lazer seja includo nessa
lista, como vivncia fundamental para
manter a sade no homem. "O homem que
no se recreia  um animal doente", diz
Vincius Cavallari, professor de educao
fsica e turismo e especializao em recreao
e lazer sociocultural. Para ele, o ser
humano precisa de lazer, fundamental para
o bem-estar fsico, mental, psicolgico e
espiritual, que  a verdadeira definio de
sade. Cavallari considera o lazer um estado
de esprito. "Voc se encontra em uma
situao favorvel, com uma pr-disposio
voltada para fazer alguma coisa interessante
e gostosa, sem compromisso. Se
voc assumiu um compromisso, deixa de
ser lazer". O professor cita como exemplo
uma festa, sempre uma atividade ldica e
recreativa; mas a festa deixar de ser uma
atividade de lazer se a pessoa estiver indo
por obrigao, para no dar furo com
algum, com vontade de fazer outra coisa.
Lazer  opo pessoal, uma escolha individual,
espontnea", diz.
As muitas vantagens do lazer
Descansar, recuperar as energias, distrair-
se, entreter-se so objetivos que costumam
ser associados ao lazer. No entanto,
alm do descanso e do divertimento, acontece
outra coisa que no  perceptvel, que
 o desenvolvimento pessoal e social que o
lazer permite. No teatro, no turismo, na
festa, esto presentes oportunidades privilegiadas,
porque as pessoas vo a esses lugares
espontaneamente e no por obrigao.
Brincar e rir faz bem
As pessoas costumam dar pouca importncia
ao lado social do lazer. Em geral,
quando uma me sabe que o seu filho vai
participar de vrias atividades recreativas e
aprender um monte de coisas, ela acha til.
Mas se ela souber que a criana s vai brincar
e rir a tarde inteira, talvez considere
intil. As pessoas no percebem que brincar
e rir faz parte do bem-estar e da sade
do homem integral. O adulto no se d o
direito ao brincar, mas se reconhecesse o
quanto isso pode ser bom para a sade, certamente
mudaria de atitude.
Adaptado por Pgina Viva do site da APABB 
Associao de Pais, Amigos e Pessoas com Deficincia,
de Funcionrios do Banco do Brasil e da Comunidade
12CA07T12P3 21.01.07 22:33 Page 27
Para algumas pessoas, o escritrio, o laboratrio,
a empresa, a rua, a escola,
enfim, todos os locais de trabalho e as
atividades ali realizadas podem ser fontes
de satisfao pessoal, alm de trabalho. E no
h nada de errado nisso: trabalhadores
assim so chamados de worklovers, expresso
em ingls que quer dizer apaixonados
pelo trabalho.
Quem lhes deu esse nome foram os
socilogos, psiclogos e mdicos do Laboratrio
de Psicologia do Trabalho da Universidade
de Braslia (Unb), que estudam
as relaes entre indivduo e trabalho. Uma
outra palavra inglesa, workaholic, que
designa as pessoas viciadas em trabalho
(que usam a profisso para fugir dos outros
aspectos da vida), se contrape aos worklovers,
que so apaixonados pelo que fazem,
trabalham muito, mas tm sua vida pessoal
e cumprem seus outros papis na
sociedade, explica o psiclogo Wanderley
Codo, coordenador da pesquisa. Trabalham
muito, mas conseguem tempo para
manter os laos afetivos familiares e para o
lazer (). O trabalho  extremamente
importante para a construo da identidade
da pessoa.  nele que o homem exerce
sua capacidade de modificar a realidade,
de se ver e de se identificar com o que faz.
E existem muitos profissionais que conseguem
manter essa capacidade no trabalho,
diz Wanderley.
A diferena
essencial entre worklovers
e workaholics
Sofrimento e alegria no escritrio
TEXTO 13
 Trabalho e Tempo Livre 28
Adaptado por Pgina Viva de O Estado de S. Paulo, de 29/10/04.
Ilustraes: Alcy
LAZER E
BATENTE
PODEM SER BONS
COMPANHEIROS
13CA07T13P3.qxd 21.01.07 22:36 Page 28
Trabalho e Tempo Livre  29
Lazer
TEXTO 14
NO CALADO
Foto: Maurcio de Souza / AE
Jogo de baralho no
calado de Santos,
So Paulo.
14CA07T14P3.qxd 12/13/06 2:54 PM Page 29
Cultura popular
TEXTO 15
 Trabalho e Tempo Livre 30
Os quatro dias que distribuem
igualitariamente o direito ao
excesso e  fantasia
CARNAVAL OU O
MUNDO
COMO TEATRO
E PRAZER
Foto: Alexandre Belem / AE
Acervo Iconographia
15CA07T15P3.qxd 12/13/06 3:35 PM Page 30
Trabalho e Tempo Livre  31
Roberto Damatta
Mas qual a receita para o carnaval brasileiro? Sabemos
que o carnaval  definido como liberdade e como
possibilidade de viver uma ausncia fantasiosa e
utpica de misria, trabalho, obrigaes, pecado e deveres.
Trata-se de um momento em que se pode deixar de viver a
vida como fardo e castigo. , no fundo, a oportunidade de
fazer tudo ao contrrio: viver e ter uma experincia do
mundo como excesso  mas como excesso de prazer, de
riqueza (ou de luxo), de alegria e de riso; de prazer sensual
que finalmente fica ao alcance de todos.
Se o desastre distribui o malefcio sem escolher entre
ricos e pobres, o carnaval faz o mesmo, s que ao contrrio.
A catstrofe que o carnaval brasileiro possibilita  a da
distribuio livre e igualitria do prazer sensual para todos.
O Rei Momo  Dionsio, o Rei da Inverso, da Antiestrutura
e do Desregramento  sugere, com o carnaval, a possibilidade
bizarra, inventando um universo social onde a regra 
praticar sistematicamente todos os excessos!
Por isso, o carnaval  percebido como algo que vem de
fora para dentro da sociedade. Como uma onda irresistvel
que nos domina, controla e seduz inapelavelmente. Ele  igualmente
percebido como uma festa onde todos so iguais  ou
podem viver uma significativa experincia de igualdade.
Mas o que o carnaval consegue fazer com o Brasil? Que
extraordinrio  esse que ele to criativamente inventa?
O carnaval  um ritual de inverso do mundo. Uma catstrofe.
S que  uma reviravolta positiva, porque planejada e,
por isso mesmo, vista como desejada e necessria.
15CA07T15P3.qxd 12/13/06 3:35 PM Page 31
Texto 15 / Cultura popular
 Trabalho e Tempo Livre 32
No carnaval, trocamos o trabalho que castiga o corpo (o
velho tripalium ou canga romana que subjugava escravos)
pelo uso do corpo como instrumento de beleza e de prazer.
No trabalho estragamos, submetemos e gastamos o corpo. No
carnaval, isso tambm ocorre, mas de modo inverso. Aqui, o
corpo  gasto pelo prazer e pela brincadeira. Da por que falamos
que nos esbaldamos ou liquidamos no carnaval.
O carnaval tambm promove a troca dos uniformes pelas
fantasias. Se o uniforme  uma vestimenta que cria ordem e
hierarquia, a fantasia permite o exagero e a troca de posies.
Note-se que, no carnaval do Brasil, no vestimos costumes,
mas fantasias. E a fantasia  tanto o sonho acordado quanto
aquela roupa que realiza a ponte entre o que realmente somos
e o que poderamos ter sido ou o que merecamos ser. A fantasia
liberta, desconstri, abre caminho e promove a passagem
para outros lugares e espaos sociais. Ela permite o livre
trnsito das pessoas por dentro de um espao social que o mundo
cotidiano, com suas leis e preconceitos, torna proibitivo.
Ademais, ela torna possvel passar de ningum a algum;
de marginal do mercado de trabalho a figura mitolgica.
 precisamente por estar vivendo uma situao na qual as
regras do mundo dirio esto temporariamente de cabea para
baixo que posso ganhar e realmente sentir uma incrvel sensao
de liberdade. Liberdade fundamental numa sociedade cuja
rotina  dominada pelas hierarquias que a todos sujeitam
numa escala de direitos e deveres vindos de cima para baixo,
dos superiores para os inferiores, dos elementos que entram
na fila e das pessoas que jamais so vistas em pblico como
comuns.
O que  o Brasil?, de Roberto Damatta. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.
Volume EJA  Ministrio da Educao  PNBE.
15CA07T15P3.qxd 21.01.07 22:38 Page 32
Lazer gerando renda
TEXTO 16
Trabalho e Tempo Livre  33
Olazer e o turismo vm ganhando peso
cada vez maior no dia-a-dia da
vida moderna. Antes aproveitados
apenas pela elite da sociedade, foram se tornando
acessveis a um pblico crescente,
graas aos processos histricos de democratizao
e aos avanos tecnolgicos. Esses
levaram ao aumento da produtividade, 
reduo dos custos em geral e das jornadas
de trabalho, elevando os recursos disponveis
para consumo das camadas mais pobres
da populao.
Atualmente, a indstria e os servios
ligados ao setor colocam-se entre os campees
de crescimento. A indstria de viagens
e turismo est entre as mais desenvolvidas
do mundo e exerce influncia
sobre outros setores de atividades, como o
varejo e a construo civil, por exemplo. 
uma indstria que perde somente para a
de alimentao em termos de consumo.
www.brasilcultura.com.br
TURISMO As faixas mais modestas
da populao
comeam a participar
da indstria do cio
16CA07T16P3.qxd 12/13/06 3:43 PM Page 33
 Trabalho e Tempo Livre 34
HASTA LA VISTA,
SIESTA!
Costumes regionais
TEXTO 17
Si usted no est durmiendo lo suficiente,
quizs es hora de empacar e irse a
Espaa. Y no se preocupe por el sueo
perdido como consecuencia del cambio de
horario. En Espaa es costumbre dormir de
dos a tres horas en la tarde. Durante las
horas de siesta muchos negocios permanecen
cerrados desde las dos hasta las
cinco. sta es la famosa siesta espaola, y
ellos adoptaron esta tradicin como una
forma prctica de lidiar con el calor intenso
de las tardes. Los espaoles insisten en
que se debe dormir unas pocas horas du-
17CAO7T17P3.qxd 12/15/06 10:05 PM Page 34
rante las horas de sol. Esto les permite estar
vivaces y alertas hasta muy tarde por la
noche, durante los fines de semana y la
media noche cuando tradicionalmente se
sirve la cena.
En Espaa, es comn quedarse despierto
hasta tarde todos los das. Este es un pas
en el que disfrutar de la vida y estar fuera
de casa hasta muy tarde por la madrugada
es algo cultural.
En la ciudad de Barcelona y en la regin
de Andaluca los trabajadores estn
durmiendo menos, como consecuencia de
las exigencias de produccin de otros pases
de la Comunidad Europea, donde darse
siestas no es comn. A pesar de los cambios
impuestos por las nuevas exigencias de
produccin, los espaoles continan cenando
a las 9 de la noche. Sin embargo, la tradicional
siesta est desapareciendo lentamente.
La gente de negocios ha comenzado
a trabajar durante las horas en las que
antes se tomaba la siesta. Esto es debido a
que frecuentemente deben negociar con
pases como Alemania y Suecia que se
adhieren a un horario distinto de negocios,
ya no tienen tiempo para su siesta. A pesar
de estos cambios, los espaoles procuran
echarse a dormir cuantas veces puedan
mientras no estn trabajando o atendiendo
obligaciones familiares.
Federico Busquets, un emprendedor de
negocios espaoles, considera que la siesta
tradicional es inmensamente necesaria, y
ha creado la franquicia de un prspero saln
de masajes que funciona con esa filosofa.
La gente generalmente se queda
dor- mida en las sillas de masaje de los 18
esta- blecimientos de Busquets, y a nadie le
mo- lesta. Los clientes estn tan desesperados
por una siesta que pagan el equivalente
a 7 euros por un masaje de 10 minutos que
les permite dormir y descansar durante las
horas de trabajo. Segn declar Busquets
la siesta no slo es una necesidad, sino que
es parte de la identidad espaola. Estamos
en Espaa! Estamos hablando de la
siesta. Perderla sera como perder las corridas
de toros, o la sangra, o la paella. Siesta
nacional? Ol!
Adaptado do site: www.1800sucolchon.com/sleepwell/siesta.asp
Trabalho e Tempo Livre  35
17CAO7T17P3.qxd 12/15/06 10:05 PM Page 35
Grande parte dos trabalhadores brasileiros
faz horas extras. Pesquisas
demonstram que os patres lucram
com isso; os trabalhadores concordam e
aproveitam para melhorar sua renda mensal.
Apesar disso, a longo prazo todos saem
perdendo.
Aumento do trabalho
Nos ltimos vinte anos, as exigncias
de produo tornaram o trabalho
mais rpido, cansativo, e estressante.
Isso porque eliminaram o tempo
livre, criaram o trabalhador multifuncional
e polivalente, e aumentaram significativamente
o desgaste mental. Trabalhar
acima dos nossos limites significa
sofrimento psquico, estresse e, por fim,
adoecimento.
Jornada prolongada
Para uma simples jornada de trabalho
oficial de 44 horas, ou de 40
horas semanais, como j acontece em
muitas empresas, os problemas de fadiga
e estresse ja tm provocado um alto
ndice de adoecimento. Fazer horas extras
 arriscar ainda mais a sade, pois duas
horas extras no significam um desgaste
de apenas duas horas a mais de trabalho.
Uma bomba-relgio
Trabalhar duas horas extras no
final da jornada significa um desgaste
enorme.  fcil entender a
razo: imagine um atleta ter de correr
mais 8 km ao final dos 42 km de uma
maratona. Pois  exatamente isso que
voc faz quando trabalha mais duas horas
ao final das suas 8 horas normais. Ou trabalha
no seu dia de descanso aps uma
semana inteira exaustiva. Alm disso,
voc perde o tempo que teria para fazer
outras coisas como descansar, passear,
estudar, namorar, ou simplesmente pensar
na sua vida. Ca entre ns, voc j pensou
nisso?
www.smabc.org.br
VIVER
TAMBM  PRECISO
Carga horria
TEXTO 18
 Trabalho e Tempo Livre 36
Horas extras, segundo pesquisas, fazem mal  sade
Ilustrao: Alcy
18CA07T18P3.qxd 12/13/06 4:11 PM Page 36
Trabalho e Tempo Livre  37
Lazer
TEXTO 19
AT SEGUNDA-FEIRA
Chico Buarque
Sei que a noite inteira eu vou cantar
At segunda-feira
quando volto a trabalhar, morena
Sei que no preciso me inquietar
At segundo aviso
Voc prometeu me amar
Por isso eu conto a quem encontro pela rua
Que meu samba  seu amigo
Que a minha casa  sua
Que meu peito  seu abrigo
Meu trabalho, seu sossego
Seu abrao, meu emprego
Quando chego
No meu lar, morena
http://vagalume.uol.com.br/chico-buarque/ate-segunda-feira.html
Ilustrao: Alcy
19CA07T19P3.qxd 12/13/06 4:49 PM Page 37
Trabalho e tempo livre
TEXTO 20
 Trabalho e Tempo Livre 38
Eu fui fazer um samba em homenagem
 nata da malandragem, que conheo
de outros carnavais.
Eu fui  Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem no existe mais.
Agora j no  normal, o que d de malandro
regular profissional, malandro com o aparato
de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital,
que nunca se d mal.
Mas o malandro para valer, no espalha,
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as ms lnguas que ele at trabalha,
Mora l longe, chacoalha no trem da central.
http://letras.terra.com.br/letras/45135/
HOMENAGEM
AO MALANDRO
Chico Buarque de Holanda
Ilustrao: Alcy
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Trabalho e Tempo Livre  39
Lazer
TEXTO 21
PESCARIA
Foto: Jos Inacio Parente
Pai e filhos em um
momento de lazer. Interior
do Estado do Rio de Janeiro.
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 Trabalho e Tempo Livre 40
O ESPRITO CARNAVALESCO
Moacyr Scliar
Cansado, ele dormia a sono alto, quando foi bruscamente
despertado pela esposa, que o sacudia violentamente.
 Que aconteceu?  resmungou ele, ainda de olhos
fechados.
 No posso dormir  queixou-se ela.
 No pode dormir? E por qu?
 Por causa do barulho  ela, irritada:  Ser possvel
que voc no oua?
Ele prestou ateno: de fato, havia barulho. O barulho de
uma escola de samba ensaiando para o carnaval: pandeiros,
tamborins... No escutara antes por causa do sono pesado. O
que no era o caso da mulher. Ela exigia providncias.
 Mas o que quer voc que eu faa?  perguntou ele, agora
tambm irritado.
 Quero que voc v l e mande pararem com esse
barulho.
 De jeito nenhum  disse ele.  No sou fiscal, no sou
polcia. Eu no vou l.
Virou-se para o lado com o propsito de conciliar de novo
o sono. O que a mulher no permitiria: logo estava a sacudi-lo
de novo.
Ele acendeu a luz, sentou na cama:
 Escute, mulher.  carnaval, esta gente sempre ensaia no
carnaval, e no vo parar o ensaio porque voc no consegue
dormir.  melhor voc colocar tampes nos ouvidos e esquecer
esta histria.
Ela comeou a chorar.
Carnaval e liberdade
TEXTO 22
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Trabalho e Tempo Livre  41
 Voc no me ama  dizia, entre soluos.  Se voc me
amasse, iria l e acabaria com a farra.
Com um suspiro, ele levantou-se da cama, vestiu-se e saiu,
sem uma palavra.
Ela ficou  espera, imaginando que em dez ou quinze
minutos a batucada cessaria.
Mas no cessava. Pior: o marido no voltava. Passou-se
meia hora, passou-se uma hora: nada. Nem sinal dele.
E a ela ficou nervosa. Ser que tinha acontecido alguma
coisa ao pobre homem? Ser que  por causa dela  ele tinha
se metido numa briga? Teria sido assassinado? Mas, neste
caso, por que continuava a batucada? Ou seria aquela gente
to insensvel que continuava a orgia carnavalesca mesmo
depois de ter matado um homem? No agentando mais, ela
vestiu-se e foi at o terreiro da escola de samba, ali perto.
No, o marido no tinha sido agredido e muito menos
assassinado. Continuava vivo, e bem vivo: no meio de uma
roda, ele sambava, animadssimo.
Ela deu meia-volta e foi para casa. Convencida de que o
esprito carnavalesco  imbatvel e fala mais alto do que qualquer
coisa.
O imaginrio cotidiano, de Moacyr Scliar. 2. ed. So Paulo: Global, 2002.
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O rei da brincadeira  , Jos
O rei da confuso  , Joo
Um trabalhava na feira  , Jos
Outro na construo  , Joo
A semana passada, no fim da semana
Joo resolveu no brigar
No domingo de tarde saiu apressado
E no foi pra Ribeira jogar
Capoeira
No foi pra l pra Ribeira
Foi namorar
O Jos como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
L perto da Boca do Rio
Foi no parque que ele avistou Juliana
Foi que ele viu
Juliana na roda com Joo
Uma rosa e um sorvete na mo
Juliana, seu sonho, uma iluso
Juliana e o amigo Joo
O espinho da rosa feriu Z
E o sorvete gelou seu corao
O sorvete e a rosa  , Jos
A rosa e o sorvete  , Jos
Oi, danando no peito  , Jos
Do Jos brincalho  , Jos
O sorvete e a rosa  , Jos
A rosa e o sorvete  , Jos
Oi, girando na mente  , Jos
Do Jos brincalho  , Jos
Lazer e tragdia
TEXTO 23
 Trabalho e Tempo Livre 42
DOMINGO
NO PARQUE
Gilberto Gil
23CA07T10P2.qxd 12/13/06 5:34 PM Page 42
Juliana girando  oi, girando
Oi, na roda gigante  oi, girando
Oi, na roda gigante  oi, girando
O amigo Joo  Joo
O sorvete  morango   vermelho
Oi, girando, e a rosa   vermelha
Oi, girando, girando   vermelha
Oi, girando, girando  olha a faca!
Olha o sangue na mo  , Jos
Juliana no cho  , Jos
Outro corpo cado  , Jos
Seu amigo, Joo  , Jos
Amanh no tem feira  , Jos
No tem mais construo  , Joo
No tem mais brincadeira  , Jos
No tem mais confuso  , Joo
Gilberto Bil, LP Gilberto Gil, 1968.
Trabalho e Tempo Livre  43
Sugesto de arte: foto derosa,
sangue, elementos da cano /
istock
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 Trabalho e Tempo Livre 44
Publicado na revista Caros Amigos.
TEMPO CURTO Claudius
Ansiedade
TEXTO 24
24CA07T24P3.qxd 12/14/06 1:26 AM Page 44
Ms compensaes
Trabalho e Tempo Livre  45
GOZO INSATISFEITO
Entre o gozo que aspiro, e o sofrimento
De minha mocidade, experimento
O mais profundo e abalador atrito...
Queimam-me o peito custicos de fogo
Esta nsia de absoluto desafogo
Abrange todo o crculo infinito.
Na insaciedade desse gozo falho
Busco no desespero do trabalho,
Sem um domingo ao menos de repouso,
Fazer parar a mquina do instinto,
Mas, quanto mais me desespero, sinto
A insaciabilidade desse gozo!
EU E OUTROS POEMAS
Augusto dos Anjos
retrato do autor
TEXTO 25
25CA07T25P3.qxd 12/14/06 1:32 AM Page 45
O BRASIL DOSRONALDOS
Realidade de vida
TEXTO 26
 Trabalho e Tempo Livre 46
Mesmo fora de forma e acima do peso,
muita gente no abre mo de correr atrs
da bola para se divertir. Especialistas
alertam sobre os riscos para a sade do
esportista de fim de semana.
J passava das 3 e meia da
tarde de sbado e os quatro
homens de calo e
chuteiras esperam sob o sol
os companheiros que vo disputar
uma partida de futebol
soaite. Cada um veste a camisa
de um time diferente,
mas algum ficou de trazer
os coletes para distinguir as
equipes. Os peladeiros chegam
aos poucos. Finalmente
foi atingido o quorum.
Ops, passou, j so dezesseis... Tudo
bem. O importante  competir. Com a
chegada de reforos, os times j podem ter
nove jogadores e se dar ao luxo de jogar
com sete de cada lado  como pede a regra
 e ainda ter dois reservas, no para uma
possvel mudana ttica, mas para revezar
o flego. Falta o responsvel pelos coletes,
mas a bola estando ali, dse
um jeito: o time da
direita tira as camisas.
Comea o espetculo. A
brincadeira dessa turma
de jornalistas de Braslia
acontece h tanto
tempo, quase duas dcadas,
que j incorporou
profissionais de outras reas
e filhos dos atletas. Um dos
organizadores, Jnio Lessa, brinca
que a aceitao de mdicos e fisioterapeutas
foi oportuna, s falta o reforo
de um psiquiatra. Lus Lima, o Lula, sofre
quando precisa faltar, nem que seja para
organizar o Trem do Forr de Recife, sua
cidade natal: Prefiro jogar. Joo Forni,
com a camisa do Grmio, confirma: A
pelada  sagrada. Um dos sem-camisa, o
diplomata Jos Renato, viveu um dilema
Ederson Granetto
26CAO7T26P3.qxd 12/13/06 6:56 PM Page 46
Trabalho e Tempo Livre  47
quando estudava para o concurso do Instituto
Rio Branco. Tinha exames no domingo,
mas no conseguia faltar  pelada da
vspera. Preferia conviver com a culpa de
no ter estudado como deveria. Ainda
bem que passou na prova.
As peladas de fim de semana fazem
parte da vida de milhes de brasileiros e,
cada vez mais, tambm de brasileiras.
Alguns grupos so mais organizados, tm
calendrio e razo social, fazem parte
de associaes e campeonatos.
Mas a maioria  pura diverso,
sem juiz ou bandeirinha, com
atacantes e defensores se
revezando at para defender
o gol. E a diverso
no se restringe ao futebol:
vlei, basquete e
tnis tambm fazem parte
dos remdios antiestresse.
Brincadeira arriscada
O problema  que a maioria
desses atletas de fim de semana
no tem preparo fsico para o esforo
em campo. Cardiologistas e ortopedistas
alertam para os altos riscos dessas atividades.
O doutor Nabil Gorayeb, mdico
responsvel pelo setor de Cardiologia do
Esporte do Instituto Dante Pazzanese e pelo
check-up esportivo do Hospital do Corao
de So Paulo, conta que no  pequeno o
nmero dos que encontram no esporte de
fim de semana o gatilho para um enfarte.
Quem gosta de atividades esportivas tem
de se preparar, conhecer o esporte e treinar,
afirma.
A sorte de quem exagera nos exerccios
de fim de semana, diz o mdico,  que
o trauma ortopdico vem antes do cardiovascular
e s vezes salva a pessoa.
Outros riscos por falta de condicionamento
fsico so as tores de tornozelo,
distenso ou ruptura muscular por falta de
condicionamento especfico. Os especialistas
recomendam treinar o gesto esportivo,
com exerccios especficos
para saltar, chutar, mudar
de direo, bloquear e fazer
fintas. Sem isso, a musculatura
no responde como deveria
e abre caminho para a
leso.
Os mdicos dizem que,
embora o risco para os mais
jovens seja menor, mesmo
eles devem caminhar pelo
menos meia hora, trs vezes
por semana, fazer alongamento e trabalho
muscular, para ter um condicionamento
mnimo e melhora na qualidade de vida.
*Agncia Carta Maior
26CAO7T26P3.qxd 12/13/06 6:56 PM Page 47
Vida urbana
TEXTO 27
 Trabalho e Tempo Livre 48
ARUA
Fotos: Acervo Iconografia
27CA07T27P3.qxd 12/13/06 8:40 PM Page 48
Trabalho e Tempo Livre  49
Joo do Rio
Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda ntima
no vos seria revelado por mim se no julgasse, e razes
no tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e
assim exagerado  partilhado por todos vs. Ns somos irmos,
ns nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias,
nos povoados, no porque soframos, com a dor e os desprazeres,
a lei e a polcia, mas porque nos une, nivela e agremia
o amor da rua.  este mesmo o sentimento imperturbvel e
indissolvel, o nico que, como a prpria vida, resiste s idades
e s pocas. Tudo se transforma, tudo varia  o amor, o
dio, o egosmo. Hoje  mais amargo o riso, mais dolorosa a
ironia, os sculos passam, deslizam, levando as coisas fteis
e os acontecimentos notveis. S persiste e fica, legado das
geraes cada vez maior, o amor da rua. A rua! Que  a rua?
Um canonetista de Montmartre f-la dizer:
Je suis la rue, femme ternellement verte,
Je nai jamais trouv dautre carrire ouverte
Sinon dtre la rue, et de tout temps, depuis
Que ce pnible monde est monde, je la suis...
A verdade e o trocadilho! Os dicionrios dizem: Rua,
do latim ruga, sulco. Espao entre as casas e as povoaes
por onde se anda e passeia. E Domingos Vieira, citando as
Ordenaes: Estradas e rua pruvicas antiguamente usadas
e os rios navegantes se som cabedaes que correm continua-
27CA07T27P3.qxd 30.01.07 16:46 Page 49
Texto 27 / Vida urbana
 Trabalho e Tempo Livre 50
mente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e
ruas pruvicas.
A obscuridade da gramtica e da lei! Os dicionrios s
so considerados fontes fceis de completo saber pelos que
nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri
dez, vinte enciclopdias, manuseei in-flios especiais de
curiosidade. A rua era para eles apenas um alinhado de
fachadas por onde se anda nas povoaes.
Ora, a rua  mais do que isso, a rua  um fator da vida
das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdo,
em Londres ou Buenos Aires, sob os cus mais diversos, nos
mais variados climas, a rua  a agasalhadora da misria. Os
desgraados no se sentem de todo sem o auxlio dos deuses
enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua.
A rua  o aplauso dos medocres, dos infelizes, dos miserveis
da arte. No paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados
de leo avaro, nem  velha Patti para admitir um fio
de voz velho, fraco e legendrio.
Bate, em compensao, palmas aos saltimbancos que,
sem voz, rouquejam com fome para alegr-la e para comer.
A rua  generosa. O crime, o delrio, a misria no os denuncia
ela. A rua  a transformadora das lnguas. Os Cndido de
Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para
enclausurar expresses; os prosadores bradam contra os
Cndido. A rua continua, matando substantivos, transformando
a significao dos termos, impondo aos dicionrios
as palavras que inventa, criando o calo que  o patrimnio
clssico dos lxicons futuros. A rua resume para o animal
civilizado todo o conforto humano. D-lhe luz, luxo, bemestar,
comodidade e at impresses selvagens no adejar das
rvores e no trinar dos pssaros.
A rua nasce, como o homem, do soluo, do espasmo. H
suor humano na argamassa do seu calamento. Cada casa
que se ergue  feita do esforo exaustivo de muitos seres, e
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Trabalho e Tempo Livre  51
haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras
para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopia
to triste que pelo ar parece um arquejante soluo. A
rua sente nos nervos essa misria da criao e, por isso,  a
mais igualitria, a mais socialista, a mais niveladora das
obras humanas. A rua criou todas as blagues, todos os lugares-
comuns. Foi ela que fez a majestade dos rifes, dos brocardos,
dos anexins, e foi tambm ela que batizou o imortal
Calino. Sem o consentimento da rua no passam os sbios, e
os charlates que a lisonjeiam lhe resumem a banalidade,
so da primeira ocasio desfeitos e soprados como bolas de
sabo. A rua  a eterna imagem da ingenuidade. Comete
crimes, desvaria  noite, treme com a febre dos delrios, para
Fotos: Acervo Iconografia
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Texto 27 / Vida urbana
 Trabalho e Tempo Livre 52
ela como para as crianas a aurora  sempre formosa, para
ela no h o despertar triste, quando o sol desponta e ela
abre os olhos esquecida das prprias aes, , no encanto da
vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostlgico
dos preges, to modesta, to lavada, to risonha, que
parece papaguear com o cu e com os anjos...
A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um
tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em
cada detalhe, em cada praa, tipo diablico que tem dos
gnomos e dos silfos das florestas, tipo proteiforme, feito de
risos e de lgrimas, de patifarias e de crimes irresponsveis,
de abandono e de indita filosofia, tipo esquisito e ambguo
com saltos de felino e risos de navalha, o prodgio de uma
criana mais sabida e ctica que os velhos de setenta invernos,
mas cuja ingenuidade  perptua, voz que d o apelido
fatal aos potentados e nunca teve preocupaes, criatura que
pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e
pode rir, francamente, depois de ter conhecido todos os
males da cidade, poeira douro que se faz lama e torna a ser
poeira  a rua criou o garoto!
Fotos: Acervo Iconografia
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Trabalho e Tempo Livre  53
Essas qualidades ns as conhecemos vagamente. Para
compreender a psicologia da rua no basta gozar-lhe as delcias
como se goza o calor do sol e o lirismo do luar.  preciso
ter esprito vagabundo, cheio de curiosidades malss e os
nervos com um perptuo desejo incompreensvel,  preciso
ser aquele que chamamos flneur e praticar o mais interessante
dos esportes  a arte de flanar.  fatigante o exerccio?
Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de
Horcio, a p, no fez outra coisa nos quarteires de Roma.
Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e
Balzac fez todos os seus preciosos achados flanando. Flanar!
A est um verbo universal sem entrada nos dicionrios, que
no pertence a nenhuma lngua! Que significa flanar? Flanar
 ser vagabundo e refletir,  ser basbaque e comentar, ter o
vrus da observao ligado ao da vadiagem. Flanar  ir por
a, de manh, de dia,  noite, meter-se nas rodas da populaa,
admirar o menino da gaitinha ali  esquina, seguir com
os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas
praas os ajuntamentos defronte das lanternas mgicas,
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conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Sade,
depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior
tenor do Lrico numa pera velha e m;  ver os bonecos
pintados a giz nos muros das casas, aps ter acompanhado
um pintor afamado at a sua grande tela paga pelo Estado;
 estar sem fazer nada e achar absolutamente necessrio ir
at um stio lbrego, para deixar de l ir, levado pela primeira
impresso, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa,
um par jovem cujo riso de amor causa inveja.
 vagabundagem? Talvez. Flanar  a distino de perambular
com inteligncia. Nada como o intil para ser artstico.
Da o desocupado flneur ter sempre na mente dez mil coisas
necessrias, imprescindveis, que podem ficar eternamente
adiadas. Do alto de uma janela, como Paul Adam, admira o
caleidoscpio da vida no eptome delirante que  a rua; 
porta do caf, como Poe no Homem das multides, dedica-se
ao exerccio de adivinhar as profisses, as preocupaes e
at os crimes dos transeuntes.  uma espcie de secreta 
maneira de Sherlock Holmes, sem os inconvenientes dos
secretas nacionais. Haveis de encontr-lo numa bela noite,
numa noite muito feia. No vos saber dizer donde vem, que
est a fazer, para onde vai.
Pensareis decerto estar diante de um sujeito fatal? Coitado!
O flneur  o bonhomme possuidor de uma alma igualitria
e risonha, falando aos notveis e aos humildes com
doura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada
vez mais se convence da inutilidade da clera e da necessidade
do perdo.
Fundao Biblioteca Nacional do Livro, A alma encantadora das ruas  Departamento Nacional do
Livro  Ministrio da Cultura.
Texto 27 / Vida urbana
 Trabalho e tempo livre 54
Foto: Acervo Iconografia
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Tempo bem empregado
TEXTO 28
NINGUM
FAZ NADA
As bases da teoria
do cio criativo
do italiano
Domenico De Masi
Trabalho e Tempo Livre  55
Ilustrao: Alcy
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J imaginou passar a vida fazendo s o
que gosta? Mas e da, viveria do qu?
Sonhos? Se a gente pensar no trabalho
como um fardo, a situao realmente parece
impossvel. Mas e se o trabalho, o lazer e
o estudo comeassem a se misturar em nossas
vidas de tal forma que no desse mais
para diferenciar uma coisa da outra?
Essa  a proposta de Domenico De
Masi, socilogo italiano da Universidade La
Sapienza, de Roma. Ele ficou famoso por
defender a idia de que  hora de as pessoas
cultivarem o cio criativo para uma
nova era. Utopia? No. Cada vez mais
gente e empresas aderem aos seus conceitos
e se tornam mais felizes e produtivas.
De acordo com o socilogo, o cio criativo
 uma arte que se aprende e se aperfeioa
com o tempo e com o exerccio. 
necessrio reconhecer que o trabalho no 
tudo na vida e que existem outros grandes
valores: o estudo para produzir saber; a
diverso para produzir alegria; o sexo para
produzir prazer; a famlia para produzir
solidariedade etc.
Nenhum progresso, porm, acontece
automaticamente,  necessrio criar um
movimento de opinio e depois um grupo
de luta para colocar em prtica idias
inovadoras como essas.
O caso  que, em todo o mundo, a
economia convencional se baseia na forma
de trabalho como o que conhecemos hoje.
Ser que seria preciso, primeiro, acontecer
uma mudana no sistema econmico para
criar o ambiente propcio  concretizao
de idias como as de Domenico De Masi?
Ele acredita que as mudanas estruturais
e culturais se influenciam entre si e
espera que a difuso de suas idias consiga
formar um grupo crtico de pessoas dispostas
a mudar realmente o seu modelo de
vida e lutar para conquistar a felicidade.
www.nova-e.inf.br/exclusivas/domenicodemasi.htm
Texto 28 / Tempo bem empregado
 Trabalho e Tempo Livre 56
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Trabalho e Tempo Livre  57
Foto: Agliberto Lima / AE
Trabalho voluntrio
TEXTO 29
 Trabalho e Tempo Livre 57
O BRASIL DO BEM
Alexandra Trentine, do
Grupo Viva e Deixe Viver,
conta histrias e mostra
livros a Carlos Roberto, 7
anos, paciente do Hospital
do Cncer.
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Texto 29 / Trabalho voluntrio
 Trabalho e Tempo Livre 58
De acordo com a Organizao das Naes Unidas, a Onu,
entre cada grupo de 10 brasileiros, pelo menos dois
se dedicam a trabalhos sociais. Em algumas instituies,
existe at fila de espera para participar.
Acada ano aumenta o nmero de brasileiros
que dedicam parte do tempo
livre a trabalhos voluntrios. E esse
batalho de gente disposta a trocar horas
de lazer pelo auxlio ao prximo no pra
de crescer. Em 2000 eram 20 milhes; hoje,
est em torno de 42 milhes de pessoas.
Ou seja, de cada 10 brasileiros, pelo
menos dois fazem trabalho voluntrio. E h
filas de espera de interessados para ajudar
Organizaes No Governamentais
(ONGs), escolas, igrejas, creches e hospitais,
como no caso do Hospital Albert Einstein,
onde sempre h pelo menos duas
centenas de pessoas aguardando chamada.
O interesse dos jovens
Entre os jovens brasileiros, 54% gostariam
de fazer trabalho voluntrio, mas no
sabem por onde comear.
Assim, so 14 milhes de jovens e 10
milhes de adultos querendo ocupar seu
tempo livre dedicando-se aos necessitados.
Enquanto isso, as grandes empresas
nacionais gastam R$ 4 bilhes por ano em
segurana patrimonial e pessoal de seus
executivos e apenas R$ 5 mil por ms em
filantropia. De acordo com dados da Receita
Federal, a mdia para doaes e contribuies
 de apenas R$ 23 mil por ano
entre 5 milhes de brasileiros que pagam
imposto de renda.
Os contadores de histrias
O projeto Contadores de Histrias, da
Associao Viva e Deixe Viver, treina voluntrios
para contar histrias para crianas e
adolescentes internados em hospitais pblicos
e privados, para proporcionar-lhes
momentos alegres e, assim, contribuir para
a humanizao da sade.  um dos trabalhos
voluntrios mais bem-sucedidos e est
espalhado por todo o pas.
www.metaong.info
Por Lusa Alcalde
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59
Lazer e deficincia
TEXTO 30
DEFICINCIA
LAZER E O
PORTADORES
OS
DE
Privadas de outros direitos fundamentais,
as pessoas portadoras de deficincia quase no tm
oportunidades de vivenciar o lazer, seja por falta
de opes ou porque so impedidas de fazerem
escolhas  at mesmo pela prpria famlia.
Trabalho e Tempo Livre 
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Texto 30 / Lazer e deficincia
 Trabalho e Tempo Livre 60
Oprofessor Vincius Saviolli, coordenador
de lazer, recreao e esportes
na APABB - Associao de Pais, Amigos
e Pessoas com Deficincia, de Funcionrios
do Banco do Brasil e da Comunidade
Associao dos Pais e Amigos do Banco do
Brasil, em So Paulo, acha muito importante
o lazer sem fins teraputicos para pessoas
portadoras de deficincia: "A vida de
uma pessoa portadora de deficincia  toda
ela um processo de reabilitao. Dessa
forma, o lazer sem fins teraputicos faz,
inclusive, com que melhore o rendimento
nas terapias realizadas durante a semana,
alm de melhorar a auto-estima.
Conquistando afeto e incluso
Por meio de uma srie de eventos de
lazer, como tardes no clube, danceterias,
passeios e festas, as famlias da Apabb
puderam perceber a importncia dessas atividades
para o desenvolvimento dos seus
filhos, e a demanda cresceu, como conta
Vincius Saviolli. "As atividades de lazer,
sobretudo os acampamentos, comearam a
dar espao para os portadores de deficincias
se colocarem, terem iniciativas autnomas,
tornando-os mais independentes.
Partimos do pressuposto que esses jovens
podem fazer tudo, dentro de uma proposta
de lazer descompromissada com o desempenho
ou metas, com o nico objetivo de
dar satisfao."
Projeto Carona
Outra experincia com recreao para
portadores de deficincia que est dando
certo  o Projeto Carona, tambm em So
Paulo. Inicialmente, o servio oferecido era
o transporte de pessoas com limitaes fsicas.
Por solicitao de pais que tinham dificuldades
de levar os filhos com deficincias
para participar de programas culturais e de
lazer, os organizadores comearam a desenvolver
esse lado e, hoje, realizam passeios
e acampamentos em grupo todos os
finais de semana.
As resistncias iniciais, quase sempre
por parte dos pais, so semelhantes s que
acontecem na Apabb, nas primeiras vezes
que os filhos participam sozinhos do programas.
"Eles descobrem coisas que podem
fazer sem os pais, descobrem que podem
divertir-se longe das famlias", conta Roque
Jos da Rocha Filho, responsvel pela rea
de recreao do Projeto Carona. "A partir
da, a famlia percebe que a superproteo
 desnecessria, que o filho tem capacidades
que desconhecia."
Fazendo amigos
Quando a proposta  voltada para a
satisfao do grupo, comeam a se estabelecer
relaes de amizade, que  uma das
dificuldades da vida desses adolescentes e
jovens", ressalta Vincius. "Eles comeam a
sair juntos, telefonar-se, trocar informaes,
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Trabalho e Tempo Livre  61
angstias e alegrias. Nos acampamentos as
relaes so intensas, o tempo todo quebrando
a rotina rgida a que normalmente
esto submetidos. No Projeto Carona tambm
surgem amizades e namoros, como em
qualquer turma de jovens. "Formamos grupos
heterogneos e eles se do superbem.
Os menos comprometidos acabam ajudando
os outros, querem acompanhar os monitores,
criando um clima saudvel." Roque
destaca ainda o papel importante do papel
desse trabalho na incluso social. "Uma
coisa  sabermos que os portadores de deficincias
existem, outra,  v-los num show,
num teatro, passeando. Os empresrios de
lazer tambm j os descobriram como clientes
em potencial que, quando bem atendidos,
retornam. s vezes, a sociedade no
os inclui porque nem os v, pois a prpria
famlia promove a excluso."
O processo de incluso social tambm
 ressaltado por Vincius. "O domnio de
regras e comportamentos especficos necessrios
s propostas recreativas em geral
estimula a autoconfiana para que a pessoa
portadora de deficincia busque,
espontaneamente, participar das atividades
de lazer existentes na comunidade", diz o
coordenador. "Tornando-se til e participativa,
ela obtm de seu grupo social reconhecimento,
respeito e afeto. Conseqentemente,
torna-se agente ativo no processo
de incluso social."
APABB - Associao de Pais, Amigos e Pessoas com Deficincia,
de Funcionrios do Banco do Brasil e da Comunidade
O deficiente
fsico Carlos
Matos, de 19
anos, entrando
no carro do
programa
Projeto Carona,
com um dos
donos, o senhor
Roque.
Foto: Epitcio Pessoa / AE
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Para o socilogo argentino Jorge Werthein,
representante da Unesco (rgo
ligado  Organizao das Naes
Unidas - ONU) no Brasil, em poca de
desemprego, falar em lazer e tempo livre 
problemtico. Nesta entrevista, ele se mostra
esperanoso quando declara que "o
tempo livre que decorre do trabalho digno
no pode ser visto como condenao ao
desemprego"
O senhor acredita que os avanos tecnolgicos,
que teoricamente proporcionam
s pessoas mais tempo fora do trabalho,
representam um avano no aproveitamento
do tempo livre?
Por um lado, representa avano, sim,
na medida em que pode ampliar o tempo
livre, possibilitando o exerccio da criatividade
e da realizao pessoal. Por outro
lado, s a menor parte da populao trabalhadora
se beneficia do tempo livre, o que
representa um problema e uma limitao.
Qual deve ser a orientao para que
o tempo livre seja melhor aproveitado?
Muitos estudiosos proclamam o trabalho
como necessidade humana bsica.
Nessa perspectiva, o tempo livre  definido
como um modo de recuperar as foras produtivas,
ou seja, descansar para poder produzir.
O declnio do emprego, por causa do
avano da cincia e da tecnologia e dos
modelos de desenvolvimento que a gente
v - que concentram decises tecnolgicas
e lucros, comea a abalar os padres da
livre concorrncia. E o tempo livre tambm
pode ser visto como um produto do sistema
capitalista, como objeto de explorao
capitalista.
De que maneira isso ocorre?
Pela propaganda de valores que tenham
efeitos positivos no aumento da produo
e do consumo. Mas  preciso reconhecer
que essa interpretao  parcial,
pois no considera a prpria luta histrica
dos trabalhadores pela reduo da jornada
de trabalho. De mais de setenta horas
LAZER X CRISE ECONMICA
Na crise, enquanto os trabalhadores
s pensam em no perder o emprego,
alguns patres consideram que o
melhor aproveitamento do tempo
livre traz como conseqncia,
melhor rendimento no trabalho.
Direito ao lazer
TEXTO 31
 Trabalho e Tempo Livre 62
Ilustrao: Alcy
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semanais de trabalho em meados do sculo
passado, a jornada em muitos pases j
est hoje abaixo de quarenta horas. Essa
conquista dos trabalhadores permitiu o
desenvolvimento de uma cultura do lazer.
As pessoas comuns passaram a ter acesso a
determinados bens da civilizao antes
reservados apenas s camadas dominantes
da sociedade. Ao mesmo tempo, surgiram
inmeras instituies sociais promotoras do
lazer que imprimiram uma dimenso cultural
ao tempo livre. Mas essa dimenso do
lazer comea a sofrer os primeiros reveses,
pois o processo de globalizao aumenta
sua velocidade, os modos de produo
mudam e a crise do desemprego aumenta
e se universaliza.
Existe um preconceito que marginaliza
o tempo livre como fator negativo para
o desenvolvimento das pessoas. Ainda se
relaciona tempo livre com o cio?
O tempo livre s ser negativo na
medida em que se reduzir a uma sociedade
de consumo. Quem v o tempo livre
apenas como cio esquece-se de que a prpria
Declarao Universal dos Direitos do
Homem. Toda pessoa tem direito a repouso
e lazer, inclusive  limitao razovel
das horas de trabalho e a frias peridicas
remuneradas.
Por causa das jornadas excessivas de
trabalho, tempo gasto na conduo,
entre outros fatores, os trabalhadores
no conseguem adquirir crescimento
cultural. Como corrigir essa defasagem?
O crescimento cultural dos excludos
representa um dos maiores desafios do
nosso tempo. S uma nova tica das relaes
internacionais, que permita a reduo
das desigualdades entre os povos,
poder viabilizar o retorno da dimenso
humana do desenvolvimento.
Como a Unesco interpreta a questo
do lazer, do trabalho e do tempo livre?
O mundo atual mostra preocupao
com essas questes?
A Unesco luta incessantemente em vrias
frentes para que os direitos humanos
sejam respeitados. Luta por um direito que
tenha compromisso com a tica e no com a
futilidade e a vida sem sentido, banalizada.
Todos os compromissos da Unesco tm
algum tipo de relao com o problema do
desemprego e do tempo livre. Educao,
cincia, cultura, direitos humanos, tudo
isso envolve, de alguma maneira, a questo
do trabalho e do lazer. Todo o esforo
da Unesco, desde quando foi criada, logo
aps a Segunda Guerra Mundial, tem sido
no sentido de promover a paz e a justia
social por meio de diversas formas de intercmbio
cientfico e cultural e compromissos
pblicos entre seus Estados-membros.
Adaptao da entrevista concedida  Fernanda Oshino, para a
revista Sesc nmero 18.
Trabalho e Tempo Livre  63
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Expediente
Comit Gestor do Projeto
Timothy Denis Ireland (Secad  Diretor do Departamento da EJA)
Cludia Veloso Torres Guimares (Secad  Coordenadora Geral da EJA)
Francisco Jos Carvalho Mazzeu (Unitrabalho)  UNESP/Unitrabalho
Diogo Joel Demarco (Unitrabalho)
Coordenao do Projeto
Francisco Jos Carvalho Mazzeu (Coordenador Geral)
Diogo Joel Demarco (Coordenador Executivo)
Luna Kalil (Coordenadora de Produo)
Equipe de Apoio Tcnico
Adan Luca Parisi
Adriana Cristina Schwengber
Andreas Santos de Almeida
Jacqueline Brizida
Kelly Markovic
Solange de Oliveira
Equipe Pedaggica
Cleide Lourdes da Silva Arajo
Douglas Aparecido de Campos
Eunice Rittmeister
Francisco Jos Carvalho Mazzeu
Maria Aparecida Mello
Equipe de Consultores
Ana Maria Roman  SP
Antonia Terra de Calazans Fernandes  PUC-SP
Armando Lrio de Souza  UFPA  PA
Clia Regina Pereira do Nascimento  Unicamp  SP
Eloisa Helena Santos  UFMG  MG
Eugenio Maria de Frana Ramos  UNESP Rio Claro  SP
Giuliete Aymard Ramos Siqueira  SP
Lia Vargas Tiriba  UFF  RJ
Lucillo de Souza Junior  UFES  ES
Luiz Antnio Ferreira  PUC-SP
Maria Aparecida de Mello  UFSCar  SP
Maria Conceio Almeida Vasconcelos  UFS  SP
Maria Mrcia Murta  UNB  DF
Maria Nezilda Culti  UEM  PR
Ocsana Sonia Danylyk  UPF  RS
Osmar S Pontes Jnior  UFC  CE
Ricardo Alvarez  Fundao Santo Andr  SP
Rita de Cssia Pacheco Gonalves  UDESC  SC
Selva Guimares Fonseca  UFU  MG
Vera Cecilia Achatkin  PUC-SP
Equipe editorial
Preparao, edio e adaptao de texto:
Editora Pgina Viva
Reviso:
Ivana Alves Costa, Marilu Tassetto,
Mnica Rodrigues de Lima,
Sandra Regina de Souza e Solange Scattolini
Edio de arte, diagramao e projeto grfico:
A+ Desenho Grfico e Comunicao
Pesquisa iconogrfica e direitos autorais:
Companhia da Memria
Fotografias no creditadas:
iStockphoto.com
Apoio
Editora Casa Amarela
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro. SP, Brasil)
Tempo livre e trabalho / [coordenao do projeto
Francisco Jos Carvalho Mazzeu, Diogo Joel Demarco,
Luna Kalil]. -- So Paulo : Unitrabalho-Fundao
Interuniversitria de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho ;
Braslia, DF : Ministrio da Educao. SECAD-Secretraria de
Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade, 2007,
-- (Coleo Cadernos de EJA)
Vrios colaboradores.
Bibliografia.
ISBN 85-296-0065-7 (Unitrabalho)
ISBN 978-85-296-0065-9 (Unitrabalho)
1. Lazer 2. Livros-texto (Ensino Fundamental)
3. Trabalho I. Mazzeu, Francisco Jos Carvalho.
II. Demarco, Diogo Joel. III. Kalil, Luna. IV. Srie.
07-0419 CDD-372.19
ndices para catlogo sistemtico:
1. Ensino integrado : Livros-texto :
Ensino fundamental 372.19
eja_expediente_Tempo_2385.qxd 1/26/07 3:33 PM Page 64

